Solucionática
DVD com soluço

Informe JB
Duelo de titãs

Cartas
Economia

Horóscopo

Millôr Fernandes
NOHTAS

Marcos Caetano
O papão não amarela, não

Gente
Missão Gisele

Charge Online

Márcia Peltier
Vale tudo

InSite
Escrever para web

Informe de Arte
Presente

Conexão Blogger
Acesse djá!

Augusto Nunes
O Brasil e os muito doidos

Nas Páginas da História
5 de agosto no JB

Informe Econômico
Grito de guerra

Boechat
Apoio extra









O Brasil e os muito doidos

Presidentes chegados a maluquices de variado calibre sempre garantiram tempero à saga republicana. Jânio Quadros talvez seja insuperável, mas enfrentou concorrentes de respeito nesse torneio tropical. Antes dele houve um Delfim Moreira, de quem já tratamos. Assim, ficam os leitores poupados de redundâncias. E descendentes do estadista morto há tanto tempo poderão dispensar-se dos protestos e contestações que se seguem a cada menção ao vice compelido a substituir o presidente eleito Rodrigues Alves.

Depois de Jânio viriam outras cabeças complicadas. Um Fernando Collor, por exemplo, não é qualquer país que produz. Empossado aos 40 anos, resolveu exibir-se em produções que justificariam a contratação de dublês. (Em Hollywood, isso seria sinal de juízo.) Fantasiado de piloto, cruzou o céu a bordo de um caça da Força Aérea. No papel de marinheiro, incorporou-se à tripulação de um submarino e foi ao fundo do mar.

Trajado de oficial, comandou na Amazônia a solenidade, com pompas e fitas, cujo clímax seria a explosão de um paiol do Exército, ou coisa parecida. Algo deu errado e o presidente quase pegou fogo, o que o transformaria numa versão inverossímil dos bonzos budistas que, nos anos 60, ateavam fogo às vestes para protestar contra a guerra do Vietnam.

Dado a correrias dominicais, seguidas pelo bando de repórteres encarregados de entrevistá-lo, Collor acabou promovendo mudanças físicas na imprensa. Alguns jornalistas tiveram a silhueta sensivelmente melhorada. Outros viraram bons fundistas. E todos aprenderam a formular perguntas em meio a sucessivos arquejos.

Depois do fundador da República de Canapi viria o homem que, na ótima frase de Fernando Gabeira (que nasceu lá e sabe do que está falando), faria do Brasil ''uma grande Juiz de Fora''. Itamar Franco se irritava com jornalistas que não o deixavam namorar em paz no cinema da cidade. (O trabalho na Presidência esperava por ele, mas Itamar queria ficar sossegado no escurinho.) Como não deixaram, o chefe do governo foi à Marquês de Sapucaí e, com Lilian Ramos, inventou a figura da primeira-dama por uma noite.

Pois mesmo tais paisanos muito doidos talvez tenham sido apenas uns amadores, nesse quesito, se comparados a militares cuja biografia ainda requer escavações minuciosas. Humberto Castello Branco e Ernesto Geisel já inspiraram bons livros, e vêm outros por aí. Serão sempre figuras controvertidas, mas de malucos não tinham nada. Como Emílio Médici.

Ainda menosprezado por pesquisadores, Médici pode ter sido apenas o medíocre que o destino buscava naquele momento histórico. Mas doido não era. Arthur da Costa e Silva e João Figueiredo requerem estudos mais acurados. Tive poucos encontros com o segundo. Tanto bastou para concluir que, entre as coisas que só acontecem no Brasil, é essencial incluir a demorada presença de Figueiredo no centro do poder.

Em 1964, ele começou a fazer carreira no Serviço Nacional de Informações, o SNI. Depois, virou chefe do Gabinete Militar do governo Médici. Com a ascensão de Geisel à Presidência, tornou-se chefe do SNI e herdeiro presuntivo do trono. Raros figurões foram tão pouco ajuizados. Poucos mandaram tanto. Os seis anos no gabinete mais vistoso do Palácio do Planalto foram só o epílogo da longa trajetória.

Encontrei-o pela última vez em março de 1987. Pernas arqueadas de oficial da Cavalaria, testa ampliada pelos cabelos lisos em fuga, calça e camisa esporte cinza, cardigã da mesma cor, cabelos e meias pretas, ganhara dez quilos nos dois anos longe da Presidência. Surpreendentemente bem-humorado, contou algumas histórias espantosas aos 25 convidados para o jantar oferecido pelo empresário que o hospedava no casarão em São Paulo.

Confirmou um boato que os jornalistas, em seis anos de governo, não haviam conseguido documentar. No meio das noites especialmente tediosas na Granja do Torto, costumava cobrir o rosto com capacete e óculos, montar furtivamente numa motocicleta e, para desespero dos agentes de segurança, sumir nas avenidas de Brasília. Voltava horas depois, com a expressão feliz de quem saboreara frutos proibidos.

Garantiu que, ao trocar Brasília pelo sítio em Nogueira, experimentara uma sensação singular. ''Foi como sair da cadeia'', comparou. ''Nem 50 japoneses me arrastariam de volta ao Planalto.'' Tratava-se de uma homenagem cifrada às mãos do médico nissei Haruo Nishimura, que cuidara de sua coluna vertebral. Como paciente, além de exemplarmente indisciplinado, Figueiredo foi o autor de frases muito boas.

''Problema na coluna é como dor de dente nas costas'', resumiu. Submetido a uma cirurgia cardíaca, fez um relato sucinto: ''Os médicos te abrem como um frango assado. A diferença é que, em vez de farofa, colocam safenas no peito da gente.'' Isso é só um esboço do perfil do homem.

Seja ele quem for, o Brasil sobreviverá ao próximo presidente da República.

[05/AGO/2002]

   Home > colunas > augusto
Primeira Página