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A guerra sem heróis

O impiedoso relógio do Jornal Nacional impediu - piedosamente - que Luiz Inácio Lula da Silva continuasse a mergulhar em outro argumento forjado para tentar explicar a mais desconcertante aliança desta temporada eleitoral: a parceria formada em São Paulo entre o PT e o PMDB, do ex-governador Orestes Quércia. Desconcertante sobretudo porque todas as denúncias até hoje feitas contra Quércia, rigorosamente todas, foram produzidas (ou subscritas) pelo PT e jamais retiradas. O que terá mudado?

''A Segunda Guerra Mundial terminou porque foi feito um acordo'', começou a dizer Lula na digressão que não terminou. Por imposição do tempo, a vírgula virou ponto e o último entrevistado da série programada pela Globo parou por aí. Sorte dele. Antes disso, como observou Alberto Dines no ótimo artigo publicado pelo Jornal do Brasil na edição de sábado, o candidato do Partido dos Trabalhadores à Presidência da República deixara escapar que não está exatamente eufórico com a parceria.

Quando William Bonner e Fátima Bernardes lhe perguntaram sobre os motivos do namoro chocante, Lula saiu-se com uma frase que Dines já tratou de dissecar: ''Não sou polícia, não sou Justiça. Sou um político. Você conversa com amigos e inimigos.'' Conversa e, eventualmente, faz acordos, deveria ter acrescentado. Porque o que houve entre Lula e Quércia foi um acordo, sim. Destinado a conseguir efeitos comparáveis ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Ao negar oficialmente a existência do acerto paulista, o PT incorre no pecado da mentira. Na mesma entrevista, no esforço para provar à Velhinha de Taubaté que nada dará a Quércia em troca do apoio do PMDB, Lula afirmou que, em São Paulo, seu candidato ao Senado é o petista Aloísio Mercadante. Muito bem. Ocorre que cada Estado elegerá neste outubro dois senadores, e o PT paulista só lançou Mercadante. Fixar-se num único nome é atitude que identifica legendas eleitoralmente frágeis, e não é esse o caso do PT, ou unidas em coalizão, como fizeram em São Paulo o PSDB e o PFL.

Abertamente coligados, o PSDB apontou para o Senado o deputado José Aníbal, o PFL optou pela tentativa de reeleição de Romeu Tuma e os dois partidos pedirão, conjuntamente, votos para a dupla. Tuma lidera as pesquisas eleitorais. José Aníbal figura num distante quarto lugar. Mercadante, também com índices ainda magros, é o terceiro. Quem é o segundo, com números que o aproximam de Tuma? Orestes Quércia, único candidato ao Senado pelo PMDB. Como Mercadante pelo PT.

Além do companheiro de partido, quem mais merecerá o voto do eleitor Luiz Inácio Lula da Silva? Tuma, que dirigia o Dops quando teve em suas celas o então líder metalúrgico do ABC? José Aníbal, filiado a um partido que hoje representa para Lula o Grande Satã? Nenhum dos dois, claro. É evidente que votará em Orestes Quércia, como no ex-governador também votarão todos os petistas dispostos a cumprir, disciplinadamente, a cláusula principal da coligação branca urdida para inchar a votação de Lula em São Paulo. Em troca do apoio do PMDB quercista à candidatura presidencial do partido, os petistas ajudarão a devolver ao Senado o grande construtor de rodovias. Cumpre-lhes pavimentar a pista esquerda.

Quem é contra acordos não entende de política, vinha repetindo Lula. Não conhece sequer a história das grandes guerras, começou a declamar na exposição interrompida pelos cronômetros da TV. Seria interessante saber até onde iria o paralelo, quem seria comparado a quem, como se enquadrariam heróis e bandidos. Na historinha de Lula, que tipos brasileiros reencarnam as figuras de Churchill, Roosevelt, Hitler, Stalin ou De Gaulle, para ficarmos só no quinteto mais vistoso?

Homens que concorrem à Presidência do Brasil não podem nem devem ser tratados como gente humilde com todo o tempo do mundo para aprender obviedades. Isso é coisa de elitista ou vassalo. É hora de alguém dizer a Lula que a Segunda Guerra foi desencadeada pela agressão militar da Alemanha totalitária, que provocou a reação de nações atacadas. A União Soviética primeiro fez um pacto com Hitler. Só combateu os alemães depois de invadida por tropas nazistas. O conflito não terminou com um acordo: seu fim se consumou com a rendição da Alemanha e, meses depois, do Japão. Os acordos costurados pelos Aliados deram nos fiascos que desembocariam na Guerra Fria.

Ao acertar-se com Quércia e desferir tão vigoroso pontapé na ética, Lula reforçou a suspeita de que, nos palanques deste país, caráter não é critério. Poupe-nos de justificar acordos com agressões à História e à inteligência.

[15/JUL/2002]

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