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Os deuses do futebol

Torcedores do Rio travam um duelo inusitado, impensável há 10 ou 20 anos, quando o futebol carioca exportava qualidade. Alvinegros, flamenguistas, tricolores e cruzmaltinos batem no peito e mostram-se até dispostos a brigar na mão, se necessário, para ter a infelicidade de provar que o seu time é pior do que o dos outros.

A evidente insatisfação com os maus resultados e a carência de ídolos estão arrancando do torcedor aquele amor próprio que ele sempre fez questão de cultivar, empurrando para escanteio o bom senso, o fio de esperança que ainda resta em cada um. Discutir aqui com detalhes qual o pior dos times cariocas tomaria um espaço considerável e é até possível que não se chegasse a qualquer conclusão. Seria na prática um par ou ímpar de pelada às avessas, cada um querendo se livrar o mais rápido possível do que há de mais indesejável.

Na realidade, os times do Rio não são assim tão inferiores aos dos outros estados, como o Brasileiro está mostrando, salvo raras exceções, mas hoje, só por hoje, vamos esquecer o que vai além dos nossos limites, para mergulhar apenas na nossa própria mediocridade.

Ok. Já há alguém, a esta altura, pronto para protestar contra o pessimismo expresso nessas breves linhas. Torna-se então necessário ressaltar, antes que seja tarde, que o objetivo aqui não é o de expor os nossos clubes ao ridículo, mas de querer acreditar, a exemplo do mais incorrigível dos otimistas, que o futebol, como a própria vida, obedece a ciclos, a períodos de vitórias e de derrotas, de alegrias e de tristezas que se alternam, segundo ordens determinadas por desejos alheios aos nossos.

Essas breves linhas querem crer que os deuses do futebol, estes seres invisíveis, ora divinos, ora diabólicos, cismaram de nos impor por uns tempos o que têm de podre, quem sabe para punir o que há de pior entre os nossos cartolas, mas que logo voltarão para reparar os danos que estão cismando de provocar as lágrimas de esguicho que estão inundando definitivamente a paciência de alvinegros, flamenguistas, tricolores e cruzmaltinos.

O Fla-Flu de quarta-feira, aliás, foi uma prova de como os tais deuses manobram as coisas ao gosto deles. Abriram uma concessão e ofereceram aos estrangeiros do petróleo um pouco do que temos de melhor, evitando que pudéssemos passar vergonha ainda maior.

Pior, impossível

Como a mensagem é de otimismo, embora absolutamente realista, e para provar que ninguém aqui tem por finalidade desfilar mau humor ou algum espírito semelhante, é importante explicar às novas gerações e reativar a memória dos mais veteranos que os torcedores dos quatro grandes do Rio já foram obrigados a aturar times similares aos atuais, mesmo que tal tarefa pareça impraticável.

Podíamos buscar pérolas dos anos 50 para trás, mas vamos ficar nas décadas de 60 para a frente, para atingirmos um universo mais abrangente.

Você, alvinegro, tem a coragem de trocar o time atual pelo que quase tombou para a Segunda Divisão, em 1985? Tem? Eis o que vais receber: Luís Carlos, Gilberto, Brasília, Leiz, Vágner, Ademir, Isaac, Berg, Helinho, Petróleo e Antônio Carlos.

E você, rubro-negro, que está desesperado com este troço que desfila hoje à sua frente - não se iludam com uma simples goleada -, prefere o time de 1967, que passou todo o tipo de vergonha? Pois tome uma de suas formações: Valdomiro, Válter, Ditão, Itamar, Paulo Henrique, Carlinhos, Jarbas, Mendoza, João Daniel, Ademar e Luís Henrique.

Para os tricolores, vai aí um time dos pesadelos, capaz de fazer esquecer com alguma rapidez uma meia-dúzia de pernas-de-pau que povoam hoje as Laranjeiras: Ricardo Pinto, Alemão, Rangel, Édson Mariano, Edgar, Alexandre Cruz, Marcelo Gomes, Andrioli, João Carlos, Hélio e Rinaldo. É o time de 1989.

Já o torcedor do Vasco, apesar do punhado de desconhecidos que habita São Januário, vai preferir o time atual ao de 1964, que alinhava Ita, Joel Felício, Caxias, Fontana, Barbosinha, Odmar, Lorico, Joãozinho, Mário, Saulzinho e Da Silva.

Tais escalações, aliás, talvez sejam suficientes para mostrar que o futebol, como a própria vida, obedece a ciclos, a períodos de vitórias e de derrotas que se alternam segundo ordens determinadas por desejos alheios aos nossos.

[06/SET/2002]

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