O futebol da Europa não está nadando em ouro. Assim, ainda saltam aos olhos os valores das principais transferências registradas no continente para a temporada 2002/03. O papo é de milhões de dólares. O Real Madrid deu 47 deles ao Inter para ter Ronaldinho. O Leeds não resistiu a uma proposta semelhante do Manchester United pelo passe do zagueiro Rio Ferdinand. E o Inter pagou 37 dos tais milhões para tirar do Lazio o goleador argentino Hernán Crespo.
Os números são até mais modestos do que os de temporadas anteriores, mas também ajudam a mostrar porque o caixa do futebol anda lidando com dificuldades. Na realidade, há um exagero no valor das transferências, uma insensatez ainda mais evidente quando se compara o nível dos muitos nomes negociados nesta e na última década com a dos craques de outras épocas.
Não se fala aqui de Ronaldinho, que com seus gols acabou sendo decisivo na conquista da recente Copa do Mundo, mas de jogadores de qualidade duvidosa que custaram fortunas injustificáveis. E que contribuíram para pôr o futebol de pernas para o ar.
Impressiona, por exemplo, um atacante como Nicolas Anelka, que sequer integrou a seleção da França em 1998, ter sido objeto de duas negociações formidáveis. Para tê-lo, em 2000, o Real Madrid chegou a pagar 33 milhões de dólares ao Arsenal. O mais curioso é que ainda obteve o dinheiro de volta, ao repassá-lo na temporada seguinte, apesar do seu evidente fracasso, para o Paris Saint-Germain.
O valor de Ronaldinho, vá lá, passou a ser inquestionável após o Mundial do Oriente. Mas é interessante lembrar que a orgia de transferências absurdas começou a tomar impulso quando o PSV Eindhoven vendeu seu passe ao Barcelona, durante a Olimpíada de Atlanta, em 1996, por algo equivalente a US$ 20 milhões, quando o brasileiro ainda não havia ganho nada que justificasse a dinheirama. A coisa toda ganhou definitivamente ares de irracionalidade em julho de 2001 quando o Juventus pagou quase US$ 100 milhões ao Parma pelo goleiro Gianluigi Buffon e o lateral Liliam Thuram.
Se você quer mais uma prova de que tais negócios são para lá de absurdos, basta dizer que na década de 80, com os US$ 33 milhões do Anelka, era possível montar um time de supercraques. Zico custou US$ 4 milhões ao Udinese em 1983. Diego Maradona, o dobro deste valor ao Napoli, em 1984.
Romário trocou o Vasco pelo PSV Eindhoven por US$ 6 milhões, em 1988. Entre 1987 e 1988, o Milan pagou US$ 15 milhões pela dupla holandesa formada por Ruud Gullit e Marco Van Basten. Na realidade, os valores das principais transferências registradas na Europa em 2002/03 e nas cinco temporadas anteriores tornam-se ainda mais assustadores quando paramos enfim para tentar fazer uma avaliação do valor dos passes de alguns foras-de-série de um passado mais remoto, como Nílton Santos, Garrincha e Didi, para ficar só nos brasileiros. Quanto custariam hoje os passes de Gérson, Tostão e Rivelino? Quanto custaria enfim o passe de Pelé, se o de Anelka valeu US$ 33 milhões por duas vezes?
Desesperador e inaceitável
O vexame do Vasco no Brasileiro é tão desesperador quanto inaceitável. O Vasco padece de dois problemas evidentes: a confusão administrativa que levou o clube a abrir mão de seus principais jogadores e a dificuldade de se montar um time no meio de um campeonato como o Brasileiro, especialmente quando se sabe que o material humano não é efetivamente dos melhores.
Na ânsia de acertar uma formação, o técnico começa a lançar ao mesmo tempo um punhado de gente sem muita experiência, que se exaspera com o entra e sai do time e principalmente com a cobrança da torcida, que exige resultados imediatos, como não poderia deixar de ser, tratando-se de um clube com o passado vitorioso como o do Vasco.
Mas o Vasco padece sobretudo de uma oposição efetivamente forte, capaz de tomar as rédeas de sua administração já nas próximas eleições, para devolvê-lo ao topo das tabelas.