A Copa do Brasil tem o campeão que merecia. A equipe do Flamengo fez até demais, levadas em conta suas limitações. Mas é sempre assim: quando um time muito popular entra numa decisão, a imprensa, o rádio e a tevê trombeteiam, soltam balões, proclamam virtudes que a equipe não tem, o que faz lembrar os surrados ardis das propagandas comerciais.
O torcedor, que dá a vida por uma ilusão, acaba fisgado pelas ardências da esperança. Basta, porém, confrontar as campanhas do Flamengo e do Cruzeiro pra saber que o time mineiro é nitidamente superior, técnica e taticamente. Se no Maracanã já deu pra notar a diferença de classe, no Mineirão, então, a realidade ficou ainda mais patente.
O time mineiro, sobretudo no segundo tempo, reforçaria o ponto de vista, que, há algum tempo, sustento com um colega sobre o goleiro Júlio César, que eu considero excelente e ele, apenas, razoável.
Em três pontes igualmente soberbas, Júlio César desviou bolas certeiras de gol, quando o placar já era de três a zero. Não estivesse, ali, um goleiro de respeito, certamente teríamos visto uma solene goleada no Mineirão.
Por fim, uma observação de caráter político: o jogador Edílson, que é um incurável língua solta, ficou a semana toda, desmerecendo o time do Cruzeiro, inclusive, com restrições nominais. Dizia, entre outras provocações, que o caminho certo da vitória rubro-negra seria o zagueiro Luisão. Resultado: Edílson acabaria fermentando, na Toca da Raposa, o pior dos ânimos da criatura humana, que é o ressentimento. Deixou o rival de brio ferido. E antes que alguém diga que a instigação faz parte da guerra de nervos, eu respondo, assim: meus amigos, na história do futebol, desde o amadorismo, o único desaforo que só funciona às avessas é o menosprezo, pelo que encerra de insulto e de humilhação.
Reincidente em agravos de mau gosto aos adversários, dentro e fora do campo, Edílson devia tomar umas lições com seu conterrâneo Vampeta, jogador bom de bola e melhor ainda de espírito esportivo. Vampeta gosta de instigar o rival mas quando o faz, é sempre na clave da mais saudável gozação. Com isso, acaba enchendo o estádio de bom-humor e de alegria.
Edílson, às vezes, esquece que nasceu na Bahia, terra da felicidade.
Tenebroso triângulo
Nos tempos atuais, mercado já deixou de ser uma palavra pra ser um estigma, no que a expressão encerra de mancha, de nódoa, de desdouro. Assim é no mundo das finanças, assim também é, hoje, no futebol. Vejam, amigos, o caso de um jogador, o atacante Reinaldo, do São Paulo.
Numa entrevista a um jornal francês, Reinaldo diz que nem sabe direito como, um belo dia, acabou no futebol europeu. Ele jogou a temporada inteira pelo São Paulo, mas pertence, de direito, ao Paris Saint-Germain, o mesmo clube de Ronaldinho Gaúcho. Palavras do próprio Reinaldo: ''Um dia, sem me dar conta do que tinha acontecido, o Vampeta estava no Flamengo, o Adriano, no Milan, e eu, no PSG. Tudo isso na mesma transação.''
Como o PSG tinha atacante de sobra, Reinaldo foi emprestado ao São Paulo. Agora, finalmente, o clube parisiense vai levar o atacante, de vez, num contrato que o prenderá até o ano de 2008. Lá, Reinaldo encontrará o lateral Paulo César, ex-Fluminense, e Ronaldinho Gaúcho. Por sinal, Ronaldinho tem sido quem mais advoga junto ao presidente do PSG a incorporação do colega.
Ao mesmo tempo, Ronaldinho faz as malas pra se mandar. Deve ir pro Manchester.
Ninguém será capaz de decifrar a complexa transação triangular Reinaldo-Adriano-Vampeta. A não ser, naturalmente, os empresários e os cartolas, senhores absolutos de um tenebroso baralho de cartas marcadas.