Armando Nogueira
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O fim do descaminho

Gente pouco ligada em futebol me pergunta por que tamanho escarcéu nessa questão do Estatuto do Torcedor. Esclareço, sem medo de errar: consciência pesada. A cartolagem do futebol sempre reinou, impávida, nos chamados subterrâneos da nação informal. Nunca deu satisfação de seus atos, quase sempre inconfessáveis.

A coisa tem funcionado assim: o fiscal não fiscaliza o clube porque, sendo um torcedor, se considera solidário. O político, que explora a popularidade do futebol, prefere deixar andar. O cartola, se me permitem a imagem, vive enrolado na bandeira do clube. Todos evitam comprar uma briga com um cartola do Flamengo, com um mandachuva do Corinthians; e, por tabela, os menos votados acabam também favorecidos pela impunidade. De repente, irrompe um novo tempo.

Antes, se alguém ousasse enquadrar um cartola, era violentamente execrado. A imprensa, igualmente passional, logo dava curso à versão de que tudo não passava de um complô pra denegrir a imagem do clube. No jogo pesado da vida pública, não era diferente: quando um político denunciava as extravagâncias do general Góis Monteiro, então Ministro da Guerra, a reação era uma nota oficial, cheia de ameaças, em defesa da instituição militar. ''Estão querendo desmoralizar o glorioso Exército Nacional.'' Cascata pura. Confundia-se a farda do general com a própria bandeira nacional.

O cavalo de batalha em torno do Estatuto do Torcedor é má-fé e nada mais. A lei é de uma propriedade edificante. Determina que os assentos nos estádios sejam numerados. Algum absurdo? Há mais de dez anos, a Fifa já obriga que os lugares sejam personalizados. A CBF nunca deu bola pra ordem da Fifa, que, por sua vez, faz vistas grossas, em nome de notória cumplicidade entre Blatter e Ricardo Teixeira. 

O critério de numeração dificulta a superlotação e facilita a manipulação da renda. Não foi por outra razão que, há mais de dez anos, o alto-falante dos estádios passou a omitir a renda da partida.

O Estatuto do Torcedor acaba também com a caixa-preta da arbitragem. Há séculos que a escolha de juiz é manobrada politicamente, pra ajudar um clube amigo e pra infernizar um cartola malquisto. O sorteio é um golpe de morte no esquema de poder do futebol. Os próprios árbitros, que deviam celebrar a autonomia que nunca tiveram, até eles também chegaram a protestar contra a transparência. Suspeito, tudo muito suspeito. Aliás, a lei devia obrigar a presença de um representante do Poder Judiciário no ritual do sorteio. É sempre bom lembrar o truque de resfriar a bola preferida...

O motim de Jacarepaguá não pretendia melar apenas o tal artigo 19, que responsabiliza o cartola pela segurança do público. Todos eles sabem perfeitamente que a intenção da lei é proteger o cidadão. Em qualquer espetáculo, seja no Teatro Municipal, seja num show de sertanejos, no Maracanã, quem responde pelo bem-estar do público é o promotor do evento. Por que seria diferente no futebol? É claro que a lei não fala de culpa presumida.

No duro, no duro, a reação é mesmo contra o todo do Estatuto, e ponto final. A verdade é que, pela primeira vez, em plena selva do mercantilismo esportivo, o futebol brasileiro é encostado à parede pelo Poder Público.

A cartolagem pressente o fim do caminho. Do descaminho.

[28/MAI/2003]

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