Manoel Francisco do Nascimento Brito, pra nós, da casa, simplesmente, ''doutor Brito''. Ele não era jornalista de redação, mas o era de coração. Quando é assim, mais sentida é a morte de alguém que soube comandar, anos e anos, a instituição chamada
JB.
O doutor Brito deixa um nome ligado a dois momentos marcantes da história deste legendário jornal, meu pouso durante tantos anos. Um privilégio que tanto prezo.
Quando comecei a trabalhar aqui, em 1959, o JB já estava embalado na sua febril revolução concebida pela Condessa Pereira Carneiro e que o doutor empalmaria. Começo por me lembrar de Amílcar de Castro, então um jovem escultor, rabiscando, em silêncio, a nova diagramação do jornal. O JB ganharia, então, um perfil gráfico jovial, sem que perdesse a aparência austera que lhe imprimira o Conde Pereira Carneiro, o fundador, e seus ilustres articulistas, todos literatos, alguns da Academia Brasileira de Letras.
Odylo Costa Filho foi o animador da nova concepção editorial do JB, inspirada, sabe bem a história, no talento de Reynaldo Jardim. Ao lado de Odylo, três jovens inquietos: Jânio de Freitas, o poeta Ferreira Gullar e José Ramos Tinhorão, os três à frente de um time respeitável de jornalistas que virava dia e noite na batalha da notícia qualificada, da análise ponderada, da opinião criteriosa. Em pouco tempo, o JB estava consagrado no Brasil como modelo de jornal bem feito, bem escrito, bem informado e, como sempre, independente.
O jornal do doutor Brito passaria, de consciência limpa, no teste mais árduo de sua carreira, que foram os anos de treva da ditadura militar. Resistiu e repeliu a censura, com altivez e, sobretudo, recorrendo a uma linguagem inteligente a serviço de idéias apenas insinuadas, que escapavam à proverbial obtusidade dos milicos de plantão. Não escapavam, porém, à sensibilidade dos leitores. Afinal, pra bom entendedor, meia palavra basta.
Nesse tempo, a redação pulsava, inflexível e bravamente, sob a liderança de Alberto Dines, um dos meus mestres de jornalismo, que seria, por muitos anos, o homem de confiança da direção. Tempos inesquecíveis do legendário Jornal do Brasil, criação da dinastia Pereira Carneiro, agora, pra sempre também, o JB do doutor Brito.
O meu personagem
Tão cedo não dá pra esquecer o último Fla-Flu. Em escassos minutos de jogo, o Fluminense já tinha ensopado o Flamengo. Diz o provérbio que a pressa é inimiga da perfeição. Pois dessa vez as duas se entenderam como almas irmãs. De mãos dadas, desbarataram a defesa do Flamengo e, em três cargas cerradas, enfiaram 3 a 0, sem aviso prévio. Se o telespectador, na poltrona, ficou perplexo, o time do Flamengo, no mínimo, ficou em estado de choque.
O Fluminense deu as galas do clássico. E ninguém pense que o time foi só garra e boa arrumação tática. Houve requinte técnico, também. E é aqui que entra, com louvor, o garoto Carlos Alberto. Menino bom de bola, em quem ainda nem sei direito o que mais admirar: se a habilidade do drible ou a precisão do passe; se a visão de jogo ou a fluência na transição da bola entre defesa e ataque. Mal domina a bola, Carlos Alberto já sabe o que fazer com ela, em benefício da ação coletiva.
O garoto Carlos Alberto foi a peça decisiva dos 10 minutos que abalaram o Fla-Flu. Por isso, faço dele o meu personagem da semana.
Colaborou Andréa Escobar