Um país fora de área...
Carlos Castelo Branco, saudoso articulista do JB, telefona pro igualmente saudoso Otto Lara Resende. ''Doutor Otto não está'', diz a empregada, Geralda, que pergunta, secamente: ''Quer deixar recado?'' Castelinho agradece: ''Não é preciso, pode deixar. Estou telefonando só pra efeito estatístico.'' Castelo costumava comentar, sempre, com outro amigo, o Nelson Rodrigues: ''Não adianta ligar, Nelson: o telefone do Otto não é veraz''.
O mistério, que antes se limitava ao telefone do querido mestre Otto Lara, hoje em dia, está espalhando pelo país inteiro. No esporte, pra ficar no meu pequeno mundo profissional, já não escapa ninguém. Você liga o celular, cai na caixa postal, que, pra variar, está sempre entupida. Chamada perdida; perdida, porém, debitada na sua conta. Liga pro telefone de mesa, cai na secretária-eletrônica, de onde uma voz impessoal informa que, no momento, o fulano não pode atender. Está em reunião.
O amigo leitor deve imaginar o suplício deste pobre marquês. Jornalista vive de informação. Informação quer dizer fonte. Eu costumo alertar os calouros do ofício de que repórter sem fonte é como fonte sem água.
O distinto leitor já tentou falar, por exemplo, com um jogador de futebol? Não? Pois então, tente. Tente. O telefone dele estará, invariavelmente, fora da área de cobertura. Você, então, procura contato com o assessor de imprensa do craque. Inútil. Quem atende é uma gravação: ''Deixe seu recado que depois ligarei de volta.'' Pois, sim. Não vai ligar. Pode esquecer, amigo.
O Brasil vive em reunião permanente. O patrão, quando não está despachando com a secretária, está despachando a dita cuja. O médico está em consulta, o que não deixa de ser um gênero de reunião. O ministro nem telefone parece ter. A voz sem rosto encerra o papo, assim: ''Este número não recebe chamadas a cobrar ou é inexistente...''
Cartola, treinador, empresário, jogador, ninguém te atende, jamais. Invariavelmente, o procurado está em reunião. Aliás, eu gostaria de conhecer um brasileiro que, neste exato momento, não esteja metido numa reunião. No meu cooper diário, em volta da Lagoa Rodrigo de Freitas, vou passando por alguns mendigos. Nunca vi um deles sozinho. Estão sempre em grupo. Vivem em reunião, debatendo a mortandade de peixes na lagoa. Por acaso, um problema que já vem boiando na pauta da cidade há mais de 50 anos. Certa vez, tentei dar um trocado a um dos pedintes e não consegui. Não queriam ser interrompidos.
Outro dia, num momento de delírio otimista, um repórter meu amigo tentou falar com o Romário. Queria saber notícias da ilustre panturrilha avariada. Ficou sabendo, pelo assessor do assessor, que o craque não podia atender. O repórter insistiu. Levou mais um fora, com uma explicação bem razoável: Romário estava na praia, reunido com a galera do futevôlei e tinha deixado ordem pra não ser interrompido por ninguém. Mesmo que fosse o Renato Gaúcho ou o David Fischel. Só falaria se fosse o Zé Colméia.
Eu mesmo acabo de passar por uma boa. Liguei pra um treinador. Pretendia aprofundar uma notícia de jornal sobre seu trabalho. Atende o assessor, com aquela pergunta que, por si só, já justifica um palavrão: ''Quem deseja...?'' Disse quem desejava... Dei meu nome. Nome e sobrenome. Repeti duas vezes, escandindo sílaba por sílaba, como um semi-analfabeto. Nova pergunta, não menos irritante: ''Armando Nogueira, de onde?'', perguntou a voz desdenhosa. Respondi, mordendo as palavras: ''Do planeta Saturno...''
E desliguei, correndo. Noutra linha, estavam me chamando pra uma reunião com a minha turma, sobre uma neurose do novo século, conhecida como Síndrome de Graham Bell.
Colaborou Andréa Escobar