Carlos Alberto Parreira disse, há pouco tempo, que o futebol é um jogo que parou no tempo. Li a afirmação do famoso técnico como um sinal de uma inquietação. De fato, no plano tático, nada de novo se criou, desde o mundial de 1966, quando os ingleses liberaram os dois laterais, pra valer, convertendo-os em pontas, ainda que no velho padrão britânico da década de 50. Então, os pontas carregavam a bola até o bico da área, de onde saiam bolas centradas. No Brasil, que copiou o estilo, a jogada se chamaria chuveirinho.
Diga-se, a bem da história, que, oito anos mais tarde, a Holanda ensaiaria uma revolução tática, com o célebre carrossel de Rinus Michel. Mas a ousadia holandesa durou pouco. A experiência ficou restrita àquela Copa do Mundo. Ninguém teria sobras de energia pra jogar o ano inteiro, duas vezes por semana, no ritmo vertiginoso do então chamado futebol total. Aliás, os holandeses, a começar pelo próprio Michel, já confessou que seu modelo foi inspirado na Seleção Brasileira de 1970.
Alguma coisa ficou das duas copas, 1966 e 1974. Os times ganharam mais força física. O jogo tornou-se muito mais disputado. Qualquer gesto, hoje, tem que ser súbito, fulminante. Ninguém tem tempo de elaborar a jogada. O dinamismo obriga que o jogador esteja o maior número de vezes, nos mais variados lugares do campo, quase que ao mesmo tempo. Quanto mais onipresente, mais valorizado será o jogador de nossos dias.
A única novidade ocorrida, por aqui, é a escalação de três zagueiros, coisa que, na Europa, é tão antiga quanto o chapeu-côco. Parreira, aliás, já avisou que vai montar a Seleção com a velha linha de quatro zagueiros.
Faço votos de que Parreira dedique seu tempo e seu engenho à exaltação do craque acima de tudo. Pois é do craque que provém a surpresa; é do talento que surge a invenção que aturde o rival. A magia do jogo nasce do craque. A tática ajuda, mas não é primordial. Primordial, mesmo, é o talento, a chispa divina.
Parreira não deve se afligir diante da mesmice tática do futebol, nos últimos anos. Esse problema sempre foi e continua a ser dos europeus. Eles é que precisam extrair dos tabuleiros as fórmulas matemáticas de um jogo que, por lá, é tratado com os rigores de uma partida de xadrez. Por isso, a bola que rola por lá não rola como cá.
É proibido morrer
Democracia? Que raio de regime é esse que o cartola jamais praticou no futebol brasileiro? Presidente, seja de clube, seja de federação e confederação, ninguém larga o osso, jamais. Todos se aboletam no poder e lá vão ficando até morrer. É Contursi, é Eurico, é Caixa D'água, é Teixeira.
Rotatividade no poder? Quem, hoje, manda chover, amanhã será chovido. No futebol, porém, a coisa é diferente. Sucessão, só mesmo por motivo de morte. Cada entidade tem uma constituição própria, que é estuprada, a cada véspera de eleição.
O monarca Dualib, do Corinthians, por exemplo, vai ser reeleito, agora, com seu colégio eleitoral reforçado por uma respeitável inovação: conselheiro da oposição ganha mandato vitalício. No Palmeiras, investiga-se, no momento, a legitimidade de conselheiros de ocasião. No Vasco, haveria uma categoria especial: o conselheiro fantasma...
Os hermeneutas do futebol já estão estudando uma rasteira na única força de oposição que vem a ser a fatalidade biológica. Até que enfim, uma restrição ao poder absoluto do cartola: pelo estatuto, presidente de clube, de federação e da CBF, enquanto no poder, fica, terminantemente, proibido de morrer.
Revogam-se as disposições em contrário.
Colaborou Andréa Escobar