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Anna Ramalho
Tempo de cafajestadas

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Tempo de cafajestadas


Ando mergulhada, nos últimos dias, numa viagem ao passado, uma vez que cuido de organizar para logo, logo, dar a redação final às saborosíssimas memórias do empresário André Jordan sobre o Rio de Janeiro dos anos dourados, para ele compreendidos entre a Copa do Mundo de 1950 e a mudança da capital para Brasília, em 1960.

A nostalgia já tinha pintado durante a temporada de entrevistas em Lisboa: apesar de não ter vivido como o André o Rio daquela época, era muito menina ainda, sinto saudade daquele tempo, quando tudo era mais romântico, mais galante e, sobretudo, mais elegante. Vivemos, neste momento, tempos cafajestes. E as cafajestadas não são exclusivas dos políticos, não. As posturas que vemos, as propostas que ouvimos, as histórias que nos contam andam muito de quinta: de telefone celular tocando em velório às ordens absurdas baixadas pelos traficantes nos morros que controlam.

Das muitas conversas que tive em Lisboa com o André, emergiram histórias deliciosas, personagens das mais diversas matizes que fizeram a história do Rio. Às voltas com todas elas, esbarrei com uma deliciosa, que repasso agora.

O André, sempre muito ligado ao meio musical, lá pelas tantas conheceu o grande Zé Keti. Naquela época, André já freqüentava as escolas de samba, comandava caravanas de amigos que saíam de seu apartamento na Avenida Rui Barbosa rumo às quadras suburbanas. Era tido, assim, como um mecenas do samba, um amigo dos sambistas. Nada mais natural, então, que seu amigo Zé Keti lhe oferecesse parceria em várias de suas músicas, coisa que o André nunca aceitou. Entendia que o amigo estava precisando de algum, dava, mas nunca quis ser o que nunca pretendeu - compositor de samba do alheio.

Fico aqui imaginando o que aconteceria, hoje, se o Zeca Pagodinho oferecesse parceria a alguém. Falo no Pagodinho de propósito. Porque fiquei sabendo há dias de uma história que é o retrato desses tempos cafajestes e que envolve o sambista.

Zeca se interessou por um apartamento na Praia de São Conrado, avaliado em US$ 1 milhão. O imóvel estava ali, anunciado há tempos, e sem comprador. Bastou o proprietário saber que Pagodinho estava interessado para subir o preço com proposta duvidosa: vendia o apê todo mobiliado por US$ 1,5 milhão. Ou seja: o recheio valia US$ 500 mil. Fala sério, né, não? O que tem nesse recheio que valha essa grana preta? Portinari, Krajcberg, Gallé, o quê, pelo amor de Deus? Tem é truta, como diria o Zeca. Má fé, má intenção, ganância. O retrato acabado do Brasil de hoje.


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[04/JUN/2005]


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