Tal qual um daqueles discípulos de Platão na Grécia Antiga, estou, hoje, como vim ao mundo: uma tábula rasa.
Posso até fazer caminhadas peripatéticas pra ver se vem alguma luz, mas tenho cá minhas dúvidas se algum clarão iluminará minha cabeça. Estou verdadeiramente desorientada, graças à modernidade extrema, à sofisticação do hi-tech que a gente vê nas páginas da revista Wired: fiquei totalmente fora de ordem porque o palmtop que pacientemente alimentei por quase dois anos - e com desvelo maternal, podem crer - teve um piti, se irritou com alguma coisa, e simplesmente foi pro brejo. Nem a luz acende mais. Finito. Zerado.
Temperamental como uma diva de ópera, o infeliz me deixou a neném - e olha que só o usava como agenda de telefones. Simplesmente porque não tenho essas habilidades todas com bytes, megabytes, downloads e demais anglicismos incorporados a uma geração criada com muito caderninho de telefone, máquina manual, aquelas Olivettis da vida, telefones pesados e enormes (de preferência, fixos na parede ou na velha mesinha do telefone).
O bichinho foi-se e não houve técnico que desse jeito. Chamei um, que me atende há anos, a quem eu havia pedido que fizesse um back-up, e ele, na maior tranqüilidade, me informou que o computador-mãe (ou seria pai?), quando pifou há dois meses, levou em suas entranhas todos os meus telefones, colecionados em quase 30 anos de profissão. É mole?
Tratou também de me acalmar, afirmando que a empresa-mãe do palm, no interior de São Paulo, consertaria, que é tudo muito rápido, muito simples, e que o aparelho voltaria de lá tinindo, novinho em folha, tal como se estivesse saindo do consultório do Pitanguy.
Desconfio de que não será bem assim. Liguei pra tal assistência técnica, que atende o freguês com as melhores frases deste irritante marketing direto, só que sem o 0800. Portanto, pra mim, já começou o preju. Daí (daí não é coisa de marketing direto de paulista?), o rapaz começou com a inana: a senhora pode estar tentando ressetar o palm? E eu, daqui: não tem jeito, o técnico já tentou... O moço insistiu, eu apertava todos os botões, aflitíssima, me achando uma anta verdadeira, não deu jeito, comecei a me impacientar, o cara também, até que soltou a pérola: ''Mas a senhora não poderia ter feito um back-up no seu computador?''.
Poderia, sim, companheiro. Não fiz porque não sei fazer back-up, só sei usar o editor de textos e cara alegre, confiei que fariam e deu no que deu.
O técnico, então, me comunicou que eu seria avisada por e-mail dos procedimentos que deveria tomar para o que o indigitado chegasse são e salvo a Jaguanum. E também que a brincadeirinha custará exatos R$ 383. Vai de boleto ou de cartão de crédito?
Acho que nem um nem outro. Estou com ganas de jogar o que resta deste morto-vivo pela janela, o que é socialmente incorreto, mas quem sabe voando ele chega ao tal do cyber espaço?
Quanto a mim, aterrissando legal e botando os dois pés na terra, vou largar o cyber pra lá. Já comprei um novo caderno de telefone. E, em nome da modernidade, vou fazer um back-up do dito cujo.