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Doces carnavais em Teresópolis


Todos os carnavais dos meus anos dourados passei em Teresópolis, onde tínhamos casa de veraneio, e para onde viajávamos no início de janeiro e de onde só voltávamos, sob veementes protestos, para o reinício das aulas, em março.

Nossa casa, uma das primeiras construções anos 20 na Rua Sloper, no Alto de Teresópolis, fora construída por meu avô e foi ''administrada'' com mão de ferro por minha avó até sua morte, aos 95 anos, já nos anos 80. E era com a velha senhora, a temível Dona Amneris, que minha irmã, Bel, e eu tínhamos que nos haver durante a semana, enquanto minha doce mãe pegava no batente para só nos reencontrar nos weekends.

Tempos idos, de muita saudade, que passamos sempre em companhia das amigas que subiam e compartilhavam conosco as delícias da adolescência - do quarto comunitário, zorra inenarrável, aos bailes de carnaval no Higino, quando saíamos fantasiadas em grupo sob o vigilante olhar de mamãe, que cuidava do rebanho aos sobressaltos, com pavor de que no meio do ''vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval'', alguma de suas ovelhas fosse desviada do bom pasto pelo bonitão da vez.

As meninas eram sempre as mesmas, durante todos aqueles anos: Kátia, que se tornaria mais tarde minha comadre duas vezes; Eliane, a nossa lourinha dos cachinhos de ouro; Regina, a bela que já sabia tudo de maquiagem e pintava todas para os bailes; Rosana, que se tornou também duplamente comadre da Bel; Tânia, outra das comadres da Bel; Edith, nossa prima, com sua mãe, Coralina, que junto com a mãe da Rosana, a Milly, ajudavam mamãe a controlar o rebanho; e as velhas tias, que faziam parte da turma da vovó: Almerinda, Esther e Neném. Era um mulherio mesmo. A Casa das Sete Mulheres perde. Até nossos quatro gatos siameses eram fêmeas. Ui! Doces memórias.

Tivemos uma turma e tanto em Terê nos nossos tempos de meninice. Podíamos estar tomando um sundae no Ângelo, na Praça do Alto, assistindo a Imitação da vida, no Cine Alvorada, na Reta; andando nos pangarés da praça; freqüentando as piscinas dos garotos veranistas como nós: Felipe, Henry, Pancho, Ulysses, Dennis; ou batendo ponto na casa das irmãs Travassos (a Patrycia, se não me engano, a terceira das sete filhas); ou na casa dos irmãos Pingarilho, Zé Luiz e César, mais o primo Flávio, na Granja Guarany. E tome de arrasta-pé ao som dos Metais em Brasa, do Peppino di Capri, do Ray Conniff, do Ed Lincoln.

Mas nada, nada mesmo, se comparava ao carnaval no Higino. A cada noite, uma produção diferente. As meninas da Rua Sloper caprichavam no visual careta da época: cigana, marinheiro francês, melindrosa, tirolês. Tudo tão puro, tão sem maldade! Popozuda, naquele tempo, nem pensar. Podia até ser popozuda, mas tinha que disfarçar em nome dos bons modos, da classe, porque de galinha (o termo da época) o mundo já estava cheio e não seria ali, no feudo da Rua Sloper, que iriam ciscar - o que dirá cacarejar. Quando, nos salões do Higino, a cabeleira do Zezé já tinha dado o que tinha que dar, quando morriam os últimos versos da Estrela D'Alva no céu desponta, quando as Pastorinhas davam lugar à Cidade Maravilhosa, aviso de fim do baile, no último minuto da terça-feira Gorda, as Cinzas literalmente se espalhavam sobre nós.

Era o sinal de que começara a contagem regressiva para a volta ao Rio, a volta ao que considerávamos a suprema chatice de nossas vidas, a volta ao colégio. Até a Semana Santa, até as férias de julho, porque naquele tempo era assim. Doces interregnos nas ainda dulcíssimas vidas. Se a gente ao menos soubesse, se a gente ao menos adivinhasse...


O café-society de mestre Ibrahim Sued está partindo. Semana passada, só numa página de obituários, nomes de peso, do tempo em que Rio de Janeiro dava as cartas em tudo, era a capital do país, onde pontificavam na sociedade nomes como Francisco Eduardo de Paula Machado, Hildegardo de Noronha, o cavalheiro dos mais incríveis olhos azuis, Maria Eudóxia Ribeiro Dantas, Gilda Garcia de Souza. No ano passado, partiram Josefina Jordan, Jorginho Guinle, Maria Eudóxia Duvivier, Paulo Geyer. Todos referência máxima da sociedade carioca. O Rio certamente está mais pobre. E bem menos elegante. Pena.


A crônica de hoje é dedicada à memória de Eliane Bacello, aquela dos cachinhos de ouro, minha companheira de adolescência e de velhos carnavais, amiga querida, que faria aniversário amanhã. De mansinho, ela abandonou a cena no domingo, quando várias bandas tocavam pelas ruas do Rio a trilha sonora dos nossos inesquecíveis carnavais na Rua Sloper. Paz, amiga. Um beijo de saudade.


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[01/FEV/2005]


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