'Barrista', sim. E com muita honra
Almoçando ontem com meu amigo e chefe André Tanure, no Sheraton Barra, à beira-mar plantado, fiz a ele uma confissão: que ando realmente mais leve, mais repousada, mais relaxada e muito, muito mais feliz, desde que me mudei profissionalmente para a Barra da Tijuca.
Os motivos são vários: estava insatisfeita com o meu trabalho no Centro, o que me deixava, além de irritada, tensa. A tensão me impedia de dormir bem. Não dormindo bem, simplesmente, não funciono - nem como pessoa física, nem como pessoa jurídica. Então, eu andava meio assim, jururu, numa sinuca de bico, quando o André me convocou para atravessar o Zuzu definitivamente e a encarar novos desafios na redação do JB Barra, que hoje comemora seu primeiro aniversário.
Topei no ato e fiz muito bem.
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A Barra da Tijuca é uma velha e querida amiga.
Aqui morei durante 24 anos - o que equivale a dizer que aqui morei mais tempo do que em qualquer outro lugar. A maior parte da minha vida.
Aqui, na beira da praia, criei meu filho, que hoje, também nesta região, mais precisamente no bucolismo da bela Vargem Grande, cria a sua filha.
Aqui vivi dias alegres e dias tristes; dias despreocupados e dias tensos; dias de muito sol e dias de muita chuva, quando as ruas alagavam de uma tal maneira que quase não se podia sair de casa.
Aqui fiz amigos. Muitos. Alguns, até hoje, ainda atravessam o Zuzu no sentido contrário pra me visitar no Jardim Botânico.
Outros, como eu, também deixaram fisicamente a Barra. Mas cá deixaram a alma, já que têm sempre alguma coisa que esqueceram por aqui - seja aquela picanha que só se encontra no mercadinho da Praça do Ó (quando a preguiça bate e ninguém quer encarar os monumentais supermercados do bairro), seja o frondoso fícus, tão verde, tão lindo, ou aquelas deslumbrantes azaléias em flor, que só as chácaras do Itanhangá podem oferecer. Arranjam desculpas, sempre, para voltar, como é o meu caso: vou dar um pulinho na Fnac pra me sentir em Paris; vou fazer as compras do mês na Barra, porque naqueles megamercados tudo acaba sendo sempre mais barato; vou naquele complexo gastronômico do Loft, que tem a melhor deli da cidade, nham-nham!; vou correr os shoppings que sempre têm de um tudo - da jóia mais exclusiva ao mais fuleiro escorredor de pratos; vou ao mercado do peixes, comprar aquele robalo na barraca da dona Rosa, e aproveito pra mandar ver na Moqueca do Gordinho e suas generosas porções, tão fartas que servem quatro pessoas, fácil, fácil.
Pra não falar daqueles que atravessam o Zuzu só pra ver o pôr-do-sol, o mais belo do Rio de Janeiro, e daqueles para os quais praia só presta se for a da Barra, de mar bravio e traiçoeiro, mas de água limpa.
Não dá pra esquecer, também, de falar da indizível beleza que é sair da Barra para São Conrado via Estrada do Joá. A vista lá de cima é das mais belas que já vi nas muitas viagens que fiz mundo afora. Mais uma prova de que Deus não apenas é brasileiro, mas também carioca. E, se bobear, nascido na Barra. Com certeza.
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Falar da Barra, lembrar do tempo que vivi aqui, é uma viagem verdadeira: mexe com tanta coisa, desperta tantas lembranças...
Parece que foi ontem que eu ficava ali, na praia, em frente ao Posto 6, de papo com as amigas - Maria Luiza, Paula, Amelinha, Ema, Jussara, Maria Carmen, Elba (que tão cedo e com tanta saudade nos deixou), Beth. Era papo com as meninas e olho no mar, onde meu filho, com a impetuosidade típica dos adolescentes, furava as ondas com a prancha de surfe até virar quase um ponto no infinito - o que me deixava sempre à beira de um ataque de nervos.
Parece que foi ontem que Christiano e seus amigos de fé - Alexandre, Felipe, Pedro, Boni - se juntavam pra aprontar todas no condomínio, tirando o sossego dos vizinhos.
Parece que foi ontem que eu saía correndo da praia e pegava o carro para trabalhar no jornal da vez - o jornal podia mudar, mas o Centro era imutável. O que não deixa de ser uma ironia da vida: agora que tenho o jornal na Barra, não tenho mais a casa. Típico, né não?
Enfim, passou rápido esse tempo, que me traz tanta saudade, que me desperta tantas e tão boas recordações...
Saudade, agora, amenizada pelo contato diário com o bairro que é Miami em sua essência, mas tem também o seu lado New York, New York. A réplica da Estátua da Liberdade está aí mesmo pra provar, né não? Cafonice à parte, virou um dos símbolos da Barra.
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E com cafonice ou sem cafonice, tomando carona nesta edição especial do JB Barra, quero aqui deixar registrado, numa boa: não sou bairrista, apesar de carioca da gema e do meu imenso amor pelo Rio de Janeiro. Viveria tranqüilamente em Londres, Paris, Nova York, Lisboa. Em Salvador, com certeza, porque amo a terra de Caymmi, João Gilberto, dos irmãos Veloso e do meu pai Diógenes.
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Não sou bairrista, portanto. Mas sou ''Barrista''. E com muita honra.