Cruzando em ziguezague a Avenida Rio Branco, ontem, me desviando de tabuleiros de castanha de caju, isopores de bebidas, banquinhas de barbeadores e cadeados, bolsinhas
pink de pelúcia - adiante, modelitos em fuxico, noves fora as Vuitton
fakes -, tapetes de DVDs e CDs piratas; me espremendo entre um rapazola magrinho que distribuía propaganda e um rapaz altão, travestido de mulher-palhaço, com um bundão falso, que alardeava as maravilhas de uma financeira-agiota dessas da vida, além de ficar com o coração apertado por verificar mais uma vez a que ponto de
miserê chegamos, até onde as pessoas são capazes de se humilhar para ter o que comer, me lembrei de minha mãe. E, apesar da imensa saudade que me acompanha há 22 anos, fiquei feliz por ela ter sido poupada de testemunhar a degradação do Rio de Janeiro, e muito especificamente do Centro da cidade que ela tanto amava.
Desde menina, me habituei a andar com mamãe pelo Centro - o chá na Colombo da Rua Gonçalves Dias, o sorvete da Casa Cavé, na Sete de Setemebro, as comprinhas na Casa Sloper, na Uruguaiana. Quando chegava o tempo do material escolar, minha mãe juntava as duas filhas e partia para a Casa Cruz, no Largo de São Francisco, de onde, invariavelmente, saíamos para um almoço na Confeitaria Manon, na Rua do Ouvidor, um must naqueles tempos tão mais amenos, tão mais alegres, tão mais despreocupados.
Ir à cidade era um programa - e não era um programa qualquer. Aos nossos olhos infantis, era um momento até solene. As roupas eram cuidadosamente escolhidas, as fitas devidamente colocadas nos cabelos, os sapatos brilhavam e estavam sempre de par com as meias . Gente fina, dizia a mãe, verdadeiramente bem nascida, não anda sem meia na cidade, nem mal vestida, nem amarfanhada, nem desgrenhada. Havia um ritual todo próprio para as visitas ao centro do Rio - ainda que a condução utilizada fosse um mero lotação. Na minha meninice, as luvas e os chapéus já haviam sido abolidos, mas mamãe - sempre vaidosa - lembrava com saudade dos acessórios. Ninguém em seu tempo pensaria em andar sem eles. Ainda que o calor fosse de 40 graus.
Hoje, bate um calorão de 40 só de olhar para o que virou a cidade - e as pessoas que por ela circulam. É até injusto que tantos homens tenham que sofrer a canícula enfiados em seus ternos, quando a maioria desfila de bermudão e sandalhão de dedo, na maior. Tênis que já viram dias melhores, camisetas de propaganda, jogging, um horror! Pra não falar das mulheres de calça capri, boustier de lycra e tamancão salto dez. Ui! Pavor, breguice total. Ou, como diria minha avó (também de saudosíssima memória), falta de modos, falta de traquejo de sociedade. Porque o mal vestir, o vestir de forma inconveniente, nada tem a ver com pobreza ou riqueza. É questão de gosto mesmo - e de educação.
Dou graças por minha mãe não estar circulando por seus pontos prediletos - se por aqui ainda estivesse, seria obrigada a topar com os parrudões da Guarda Municipal, seus escudos e capacetes, tropeçar naqueles pivetes sempre de olho nas carteiras e/ou nos celulares da gente, ia ser obrigada a driblar a buraqueira pra não se estabacar, a dizer não a uma infinidade de ambulantes e pedintes - enfim, seja lá como for o lugar que a gente vai depois da morte, ainda que não ofereça querubins, serafins, coro de anjos e nuvens cor-de-rosa, certamente será melhor do que andar hoje pela Avenida Rio Branco. Essa, sim, o inferno sobre a Terra. Satanás em pessoa.
E já que o assunto é mãe, e amanhã é o dia delas, será que alguém pode me explicar o que é aquele comercial com a Regina Duarte e sua filha Gabriela idem? O que fizeram com o cabelo da ex-namoradinha do Brasil? Nos tempos em que eu andava com mamãe pelo Centro do Rio, aquele penteado era conhecido como pega-rapaz. Coisa, aliás, em completo desuso nesses tempos loucos. Hoje, quem pega rapaz é gay. Mulheres maduras como La Duarte, ainda que belas e com tudo em cima, não estão pegando nem resfriado, né não?
Bom, sempre tem uma Marília Gabriela para garantir o brilhareco do mulherio, mas Marília, como todos sabemos, é única. Quem mais nesse país consegue ser, a saber: uma excelente jornalista, uma bela mulher inteligente, uma elogiada atriz, uma atenta mãe de filhos bem encaminhados e, ainda por cima, dividir os lençóis com aquela maravilha do Reinaldo Giannechinni? Marília não precisa nem de comercial. O que já não acontece, na outra ponta, com a Viviane Romanelli, aquela que chateava no Shoptime e agora chateia no Ponto Frio. E ainda carrega a mãe e a filha pra chatear junto. Sei que a vida está difícil, mas também sei que é preciso consumir. Só não sei é se o povo precisa ser convencido a consumir justo pela Romanelli. Enfim, é Dia das Mães, e como canta o Chico naquela música, ''eu resolvi te perdoar''.
Também em homenagem ao Dia das Mães, quero desejar tudo de bom a Dona Rosinha, a mãe do Estado. Se tenho lá minhas restrições à sua atuação política, não posso negar que, como mãe, nossa governadora é dez. Até no número de filhos: amar, amparar, cuidar, vigiar nove filhos é coisa mesmo para estadista. Portanto, uma rosa virtual para a nossa governadora-mamãe.