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Beleza pura

 


Beleza pura


Parece coisa de universo paralelo: no momento em que, no Brasil, comemora-se o 50º aniversário dos concursos de Miss Brasil, em Marselha, na França, localizam os restos do avião de Saint-Exupéry, 60 anos após o seu desaparecimento no mar. O escritor Antoine de Saint-Exupéry e seu livro O Pequeno Príncipe ocuparam a cabeceira de dez entre dez misses ao longo dos certames (certame: era assim que os mestres-de-cerimônia da época falavam, cheios das pompas), nas décadas de 50, 60 e 70, quando o Brasil parava com os concursos de miss. Agora, o francês já deve ter perdido o posto para Paulo Coelho. Não paga dez. É esperar pela semana que vem, quando Marlene Mattos apresentará sua versão atualizada do balaco, para conferir. Outros detalhes a verificar: quem substituirá Maria Augusta da Socila e sua bengala/adereço? Sai o maiô Catalina e entra o que no lugar? Lenny, Rosa Chá, Bumbum? Será que as novas candidatas vão cantar aquele hino: ''Os estados brasileiros se apresentam...'' ? Ou será que vêm trauteando um rap moderninho? Ui, quanto suspense!

De certo mesmo, fiquei sabendo que a eterna Miss Brasil Martha Rocha -- que desafia os 15 minutos de fama, desfilando sua beleza há 50 anos -- estará no júri que elegerá a bela da vez, dia 15, em São Paulo. Vai, poderosa, com uma réplica do vestido que usou, em 1954, feita especialmente pela estilista Áurea Veloso, de Belo Horizonte. Em julho, Martha será mais uma vez homenageada: uma grande exposição comemorativa do cinqüentenário das Duas Polegadas está sendo montada para inaugurar, no Rio, em julho. A surpresa maior será o quadro no qual o pintor Israel Pedrosa imortalizou sua beleza, pintando com a figura dela a carta da Morte, no seu famoso Tarô Brasileiro.

Na época em que o quadro foi pintado (1989), Martha chegou a ficar ofendida. O tempo fez com que ela aceitasse o gesto como um grande reconhecimento pela fama universal que sua beleza conquistou. Afinal, é melhor ser eternizada por um pintor do porte de Israel Pedrosa do que por qualquer calendário de bombeiro, né não?


O governador, ops! perdão, o secretário de Segurança Anthony Garotinho, com todo o respeito, virou o Inspetor Clouseau, aquele personagem trapalhão imortalizado por Peter Sellers nas aventuras cinematográficas de A Pantera Cor de Rosa. Gente, o homem não acerta uma. Na quinta-feira, depois das trapalhadas do caso Staheli e das versões desencontradas do caseiro Jossiel, declarou com todas as letras, referindo-se aos policiais: ''Estão dizendo bobagem. Quem não tem o que falar deve ficar quieto''.

Não é por nada, não, mas não seria a declaração auto-aplicável? Sua Excelência, mais uma vez com todo o respeito, está falando bobagem desde que o casal foi assassinado em 30 de novembro passado. E enquanto ele fala e os policiais se irritam, o Estado registra índice inédito e assustador de violência.

Os bandidos estão mais destemidos do que nunca, assaltos à luz do dia acontecem diariamente nos mais variados pontos da cidade e nos mais diversos lugarejos do Estado, o pau está cantando feio, e nossa governadora preocupa-se com a esbeltez de sua silhueta. Tanta dieta fez, que passou mal e foi obrigada a repousar. O Rio de Janeiro continua lindo -- e abandonado à própria sorte. Completamente.

Até quando, Senhor?


Com perdão dos Garotinho, Inho, agora, só para Daiane dos Santos e Maria Bethânia. Ambas botaram o Brasileirinho nas alturas - nas piruetas e no gogó.


Gonzaguinha também cabe no diminutivo carinhoso. E como! A reestréia do espetáculo Começaria tudo outra vez, essa semana, foi uma cacetada na emoção. Escrito e dirigido pelo jornalista Dácio Malta, é programa imperdível. O ator Gaspar Filho está tão perfeito no papel que mais parece a reencarnação do saudoso compositor que tão cedo nos deixou. Saí do teatro imaginando o que um crítico feroz das mazelas desse país, como o Gonzaguinha foi, estaria compondo se aquele triste acidente, em 1991, não o tivesse tirado de cena. Tenho cá pra mim que não ia sobrar pedra sobre pedra.


Não dá pra passar batido num país no qual o todo-poderoso secretário de Comunicação, Luiz Gushiken, com aquela sua cara de mandarim, dá-se ao desplante de criticar a imprensa e arrematar sua desastrada fala com máxima digna de Pollyana, aquela menina aleijada da literatura americana que se consolava das tristezas da vida mirando as luzes dos prismas de cristal: ''O cidadão precisa ver o lado positivo das coisas. Há um cansaço de notícias negativas''. Como se jornalista pudesse dar uma de Pollyana pintando os fatos de rosa-bombom pra agradar leitor. É ruim, hein!


E como a gente palpitou na coluna de estréia aqui no JB Barra, a Cida BBB botou 500 pratas na pochette. Essa, se tomar o cuidado de pôr em ordem a cabeça, pode dispensar a Pollyana tranqüilamente. Não vai precisar de prisma de cristal para ver o mundo cor-de-rosa. Daqui pra frente, como naquela música do Roberto, tudo vai ser diferente. Acelera, Cida!


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[10/ABR/2004]


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