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Bengalas homicidas
Uma inconveniente e dolorosa crise de coluna me jogou pra escanteio desde a última terça-feira, me obrigando àquele insuportável repouso forçado e ao desconforto de digitar essas mal traçadas diretamente do leito, mas dando graças ao Bom Pai por ainda poder batucar no laptop. Bendita modernidade! Tal imobilidade tem que ter seu lado bom, uma vez que me impede de trabalhar, andar, sassaricar, viajar, coisas tão caras ao meu irrequieto espírito e, desta vez, teve. Deitadinha como manda o doutor, esqueleto acomodado na horizontal, li de um fôlego só Quase tudo, as memórias de Danuza Leão. Grande Danuza!
A mulher que virou a cabeça do Rio de Janeiro, o mais perfeito exemplar do veneno e do charme da mulher brasileira, como canta o nosso Benjor, tem tudo para arrebatar mais um título para seu extenso currículo: musa do verão 2006. Pelo andar da carruagem, já é best-seller e, pelo conjunto da obra, merece o título. É tão interessante o relato da Leão que eu encararia, alegremente, o Quase tudo II. Até porque, das duas, uma: ou a vida de colunista restringiu Danuza a notas sintéticas ou muita coisa palpitante deve ter ficado de fora. Aposto na segunda hipótese.
Enquanto isso, no Planalto Central, um novo best-seller toma forma: a vida, a obra, os triunfos e a desgraça do ex-ministro e agora também ex-deputado José Dirceu, que serão contados em já anunciado livro de Fernando Morais. O Congresso fez o que tinha que ser feito; o Supremo ameaçou melar o jogo, mas recuou a tempo; o presidente Lula posou de bonzinho oferecendo o ombro amigo e palavras de incentivo; o intelectual enragé distribuiu bengaladas. O povo brasileiro respira aliviado. Menos um, viva o Brasil! Não conheço José Dirceu e acho que ele errou. Pecou primordialmente pela soberba e excesso de ambição. Como cristã que sou, no entanto, não posso deixar de ter por ele, neste momento, uma imensa compaixão. São mesmo vãs as glórias do mundo.
Há muitos anos, a saudosa e divina Dina Sfat, em plena ditadura, confessou pela televisão que tinha medo dos generais. Regina Duarte, na última campanha, provocou ódio quando declarou que tinha medo de um governo Lula. Tenho medo da ministra Dilma Roussef, confesso. Ela me lembra em sua seriedade e naquela sisudez uma professora de português que tive no Santa Úrsula, Dona Teresa. Ui!, Dona Teresa não era bolinho, não. Sei que a ministra lutou contra a ditadura, apanhou muito, é respeitada por seus pares e mais ainda pelo nosso presidente. É a mulher tipo nota dez, aquela que fez tudo certo, de forma coerente, um expoente, um gênio da raça feminina. Sei de tudo isso. Mas, nesta época de bengalas homicidas, manda o bom senso que eu cale a boca. Uma bengalada de mau jeito pode ser fatal para a minha tão combalida coluna cervical.
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