''Tem dias em que a gente só vê defeitos, não é mesmo? Acha que tudo caiu, da cara à bunda, um filme de terror!'', desabafou Rutinha, diante do espelho, no banheiro da churrascaria.
Era uma parada. Todo domingo, depois de almoçar tarde e exagerar na dose, minha amiga quedava-se em comiserações pessoais mirando-se em qualquer espelho que aparecesse no caminho. Uma via crúcis dolorosa do lado estético. E uma chatice para quem estava por perto. Sim, porque reclamar do que comeu ou de como está precisando emagrecer é contagioso. Basta uma amiga começar a falar que todo mundo vai atrás: é pior do que bocejo ou riso frouxo.
Eu já ia embarcar nessa canoa quando me dei conta de que não estava com vontade de enveredar por esse arquipélago de defeitos que povoam a vaidade feminina.
Estamos sempre achando que precisamos fazer uma puxadinha aqui, uma lipo ali, um botox acolá, um preenchimentozinho... Nada realmente esclarecedor do ponto de vista filosófico, mas que diz barbaridades da alma feminina. E lá ia eu nesses pensamentos pós-comilança, quando vi Helenice entrar no restaurante, cheia de amor pra dar. Quase não a reconheci.
Os cabelos estavam mais longos e com um reflexo acobreado que a deixavam muito mais jovem. A silhueta afinada se ajeitara muito bem em um tubinho de onça, pura fera solta no pedaço, pensei.
Quando ela se aproximou da nossa mesa, pude observar claramente que até seu olhar estava com outro brilho. Hum, pensei, aí tem.
Helenice sempre fora uma pessoa do tipo contida: casou cedo, teve filhos cedo e, bimba, nunca tinha se encontrado. Pelo menos não até aquele estágio de sua vida. Agora, ela esbanjava charme e sedução.
É interessante ver como algumas mulheres precisam fazer sua busca pessoal debaixo de tragédias monumentais. No caso dela não tinha sido diferente.
Seu filho mais velho tinha morrido em um desastre de carro. Aquilo a fez duvidar de tudo: do dia, da noite, do céu e do inferno que carregamos conosco quando nos sentimos injustiçadas pelo destino. É sempre assim quando o imponderável bate à nossa porta. Não nos achamos merecedores de nenhuma tragédia e elas, no entanto, continuam caindo feito bombas em vários lares, sem que ninguém saiba bem o por quê.
Já tinham se passado cinco anos e depois de trancos e barrancos, Helenice resolveu se colocar de outra forma diante do sofrimento. Mas eu só soube de tudo o que aconteceu quando a encontrei na casa da Vanessa.
Primeiro foi o casamento com Antônio que andava baqueado e caiu de vez. Ele a trocou por uma moça bem mais jovem que o fazia sentir um garanhão e fez logo um filho com ele. Diante de sua dor, porém, isto pouco importava. Helenice percebeu que para sobreviver precisava de uma nova identidade: mudou não só a forma de se vestir como também de pensar. Munida de seus apetrechos femininos e existenciais, ela resolveu enfrentar seus medos, principalmente aqueles que tinha escondido debaixo do tapete desde quando era menina. Não importava se eles eram adubados com sentimentos infantis. ''Eu tinha que vencê-los'', me disse ela sem rodeios. Helenice saltou de pára-quedas, mergulhou no Caribe para ver tubarão, fez trabalho voluntário em um hospital psquiátrico público e com aidéticos, matou baratas e caçou ratos na favela com o pessoal da ONG que passou a freqüentar.
''Ah, por isso que você está tão mudada!'', comentei impressionada com sua determinação. ''Não'', me disse ela calmamente. ''O que me mudou mesmo foi reencontrar o amor. Lembra daquele rapaz que estava comigo no restaurante quando nos encontramos? Pois é, nas andanças para ver até onde eu iria chegar, me testando, encontrei aquela fortaleza do Leonardo. Dá para acreditar''?
Rutinha quando soube do caso não perdeu a pose e declarou, aliás, com a maior propriedade. ''Só se apaga a dor com amor''. Minha amiga, quem diria, virou poeta.