O baú de Clarice

[05/MAR/2005]

''Existem momentos em que achamos que a força não vem mais de dentro de nós. Como se tudo não passasse de uma ilusão e o mundo fosse um peça de ficção mal escrita onde, muitas vezes, não cabemos.''

Esta reflexão de Clarice era a cara dela! Parecia que minha amiga sabia escolher, a dedo, a hora para me tirar do sério, me arrastando para assuntos metafísicos ou existenciais, tão próprios de pessoas que gostam de chafurdar na depressão.

Não me contive e fui logo dizendo: Vamos dar um tempo para a nuvem cinza hoje?

Pensei que tinha feito uma sinalização bem clara de ''chô, deprimida!'' Que nada.

Clarice era como aqueles brinquedinhos de corda: quanto mais chacoalha, mais tem energia para continuar.

''Você está sendo insensível!'' , reclamou Clarice.

Já sem a menor paciência, me rendi, mais uma vez, aos seus dramas costumeiros. Só que agora eu estava escolada. Sabia que nunca era nada. E, dessa vez, não foi também. Aliás, não havia uma razão sequer para ela se lamentar. Sua vida corria normal, com chateações, aqui e ali, como todo mundo. Nada gigantesco que precisasse ser mensurado ou relativizado. Nada. Então, por que Clarice não podia ficar com pensamentos voltados para o lado ameno da vida?

Que mecanismo diabólico era este que a levava sempre para um beco escuro e a transformava num manancial de resmungos e lamentações que exauriam seus amigos e espantavam seus namorados?

Uma vez tentei dizer tudo isso para ela. Clarice ficou sentida. Sumiu por quase um mês.

Decidi que o melhor era ser mais sutil. Pelo menos era o que eu pretendia. Ser mais racional e menos emocional, pensei. Mas sabe quando a pessoa tem a capacidade de detonar em você um mecanismo de explosão? Pois é.

Comecei com um tá bom, Clarice, mas fui crescendo e quando me dei conta, já tinha extravasado tudo e mais um pouco.

Sei que tudo para você é mau, perigoso. Não aguento mais ouvir você dizendo que gostaria de morar em outro lugar, ter uma vida completamente diferente, ser mais autêntica e realizada. Isto sem falar no fato de você viver se lamentando não ter tido um grande amor, cinco filhos, escrito um livro e, o que mais, hein? Ah, já sei, ter tido uma ONG para ajudar crianças carentes e outra para lutar pelos direitos da mulher. Sei que você queria ter muito dinheiro e o corpinho sarado para só se vestir com grifes antenadas. Tá bom assim? Por que se estiver faltando algo, eu posso colocar mais alguma coisa neste baú !

Pronto. Disse tudo para ela. Que coisa! Clarice realmente me tirou do sério.

Quando eu já começava a jogar a culpa nela, caí em mim. Clarice não me obrigou a nada. Fui eu que perdi a cabeça por minha conta. Enquanto conjeturava, nem percebi que minha amiga já ia longe.

Desta vez acho que Clarice vai dar um bom tempo antes de nos encontrarmos de novo. Paciência. Sei que nossa amizade resistirá a esses embates, mas tenho pena. Pena de não entender o outro quando não estamos na pele dele. Daquele que se sente excluído, diferente, deslocado mesmo. E o pior é que esta síndrome vai perseguir minha amiga como sempre fez. Quase gritei para ela que não vai dar para continuar carregando este baú de lamentações sozinha. Do problemão que será arrastar esta coisa durante toda a vida. Também sei que não serei eu o cristo que fará força para empurrá-lo ladeira acima, ou abaixo. Sei também que do jeito que fiz hoje, só ajudei a enchê-lo, um pouco mais.

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