''Não basta ter um coração puro'', me disse Clarice, arregimentando todas as forças que possuía. ''Não basta ter um coração puro'', minha amiga repetia insistentemente como um mantra, ribombando suas palavras em sincopadas lamentações.
O que tinha levado Clarisse a tamanho desecanto?, me perguntei apreensiva com o comportamento dela. Sempre soube que ela era um pouco chegada a dramalhões mexicanos. A drama queen- rainha do drama - como dizem os americanos. Cheguei até a me lembrar de uma plaquinha com que nossa amiga americana Vicky a presenteou de brincadeira, quando ela entrou em um de seus dramas existenciais conhecidos: de cerâmica, com uma bela coroa de pedras preciosas em alto-relevo e o título monárquico gravado em douradas letras pomposas: Drama Queen. A cara de Clarice, pensei, já me divertindo com o episódio para, na mesma hora, me dar conta de que minha amiga estava num estado lastimável.
Mesmo assim, as imagens daquela época teimavam em voltar à minha cabeça.
Lembro, como se fosse hoje, de como rimos muito com tudo aquilo. Clarice chegou até a concordar que fazia um cavalo de batalha por tudo. E ela sabia que sempre tinha sido assim. Desde pequena. Um tombo era um acidente grave. Uma reclamação qualquer, ofensa pessoal. Pior era a total falta de sintonia com a realidade banal de que, simplesmente, imprevistos acontecem.
Me vi repetindo milhões de vezes para ela: o mundo não está 24 horas conspirando contra você!
Nossa. Como as lembranças estavam vivas e como nada parecia ter mudado na relação de Clarice com as dificuldades do mundo!
Sei que para muitos de nós resolver os simples problemas do dia-a-dia pode ser uma tarefa hercúlea: tomar conta da casa, dos filhos, do marido e do trabalho mas, o que podemos fazer, é assim mesmo. De que adianta nos rebelarmos?
Mas, e Clarice?
Bem, resumindo, ela estava em pé de guerra com a mãe. Rosária, era o nome dela, sempre teve mania de controlar a filha. Vivia ligando em todos os momentos, reclamava de como ela cuidava da casa, da maneira como ela se vestia, de como ela conduzia sua vida amorosa e profissional, enfim, um sufoco.
Clarice sempre quis ser uma boa filha. Tinha paciência, procurava desculpar a mãe e teimava em ter um olhar benevolente para as intromissões dela. Só que tudo isto a estava deixando pirada. Ser boazinha estava custando caro. Agora, então, com a vida exigindo mais dela, e Rafael espezinhando sua auto-estima, a mãe virou um fardo pesado demais.
O problema é que ela sempre tinha aceitado tudo numa boa. Dar um grito de liberdade tardia foi um pouco demais para Clarice.
Pelo menos foi o que ela me contou depois de dizer que a mãe estava internada por causa de um princípio de AVC.
Resolvida a colocar tudo para fora, Clarice errou na mão. Perdeu as estribeiras e disse as últimas para a mãe. Dona Rosária, ultra-ofendida, reagiu veementemente. A pressão subiu e, bem, já dá para imaginar a cena.
Por isso Clarice estava tão perplexa. Não entendia como tudo tinha caminhado tão rapidamente para tamanha situação dramática: a mãe no hospital e ela no purgatório, por conta de tanta culpa.
Engraçado, pensei, Clarice sempre engoliu qualquer coisa. Mas para não ser engolida junto, percebeu que precisava ir além de cultivar um coração bondoso. Precisava, mais do que tudo, encontrar seus limites.