''Queria poder levar comigo as experiências do passado tal qual um tesouro'', me disse Paulinha, um pouco amuada com seu descompasso na vida. ''Sempre tive mania de perfeição e, agora, ela me assombra como se fosse um fantasma de mim mesma'', confessou timidamente minha amiga, depois de ter ido à igreja rezar um pouco.
Paulinha gostava de se sentar nos bancos de trás e fingir que estava sozinha na casa de Deus. Acreditava que desta forma seria ouvida, ou, ainda melhor, atendida em todos os seus desejos.
Me lembro muito bem do último dia em que a vi lá, contrita, como se o universo inteiro dependesse de suas orações.
Sempre discuti com Paulinha sobre esta carga emocional que ela dedicava aos seus atos. Nessas horas ela me olhava com uma certa compaixão que beirava pena. Parecia dizer, ''pobre de você que não tem fé!''
Confesso que, algumas vezes, esse jeito carola dela me irritou profundamente. Soava como uma coisa meio inquisitorial ou mesmo espiritualista demais, algo excludente, onde só os iniciados pudessem trafegar.
Daí que este jeito excessivamente messiânico de Paulinha começou a me preocupar.
Tudo era o poder divino, os santos, Nossa Senhora e Jesus. Tudo!
Minha amiga tinha deixado de olhar para as coisas terrenas com a obrigação de resolvê-las. Passou a confiar que os seus problemas seriam, exclusivamente, resolvidos por obra e graça do Divino.
Paulinha ficou a tal ponto refém de suas convicções exacerbadamente religiosas que se esqueceu das obrigações que dependiam dela mesmo, como a própria família e seu próprio corpo.
Fora de forma, ela estava precisando perder uns oito quilos. Isto sem falar dos cabelos sempre presos e malcuidados e da pouca vontade de sair de casa.
Paulinha estava virando uma reclusa. Ela quase não via as amigas e colocava a culpa de suas preocupações na mãe enferma e nos irmãos que a azucrinavam com pedidos de dinheiro.
Ela tinha escolhido viver um ingrato dilema: será que ser feliz era um ato de egoísmo diante da magnitude de seus problemas familiares?
Esta culpa ancestral que a perseguia célere e cruelmente acabou transformando-a numa vítima de suas virtudes existenciais.
Cheguei à conclusão de que Paulinha queria ser melhor do que era. Minha amiga acreditava na perfeição e não conseguia encarar o fato de que era, apenas, uma pessoa normal, humana, com todos os percalços da nossa existência imperfeita. Graças a Deus!
Um dia, o marido não agüentou e a colocou no paredão: ou ela se aprumava para a vida ou ele a deixaria. Estava farto de lamentações e de ser colocado sempre depois dos seus problemas com a mãe e os irmãos.
Rodrigo reclamava com razão: ''E a nossa família, não conta, não vem em primeiro lugar?'' se queixava, repleto de lacunas, ao olhar para a mulher cada vez mais distante da pessoa com quem tinha casado. ''E as crianças?'', cobrava com olhar ferido, ''que lugar ocupam, também?''.
Paulinha ficou perplexa. Como é que ele podia dizer essas coisas, como podia torturá-la ainda mais diante de tudo o que estava sofrendo?, ela me perguntava, chorando copiosamente.
Ao falar que Rodrigo era um insensível, não agüentei. Disse tudo o que achava para ela.
Falei de sua mania de colocar todas as decisões nas mãos de Deus e de não fazer a parte humana que lhe cabia. Reclamei do exagero em se ligar aos problemas da mãe e dos irmãos e da condição de vítima em que estava se colocando.
Abri meu coração com toda a força de minhas convicções. Acredito que devemos nos pôr à prova por aqueles que queremos bem.
Sei que posso ter sido rude e até invasiva, mas o que me consola é que fui cem por cento sincera. Fiz por amizade, senão, quem o faria? Quem?