Hoje seremos todos velhinhos. Walter Alfaiate, na elegância carioca de seus quase 73 anos, só lançou CD em 1998 ou 99. O segundo, só meses atrás. Com aquele dó de peito, Walter protagoniza cenas divertidas na boemia. Há semanas, decidiu cantar num restaurante. A casa estava cheia, e o que era rodinha entre amigos foi virando cantoria. O gerente Chico, há 51 anos trabalhando na Lapa, mandou parar. E quando manda, é ordem. Constrangimento. Saiu nota em coluna social desancando o Capela.
Noite de São João. Walter participa, na Assembléia Legislativa, da homenagem ao nosso estado de espírito, Ziraldo, 71, e à viúva de Donga, a Vó Maria, 93 anos. Em seguida, vai a outra homenagem, a Nilton Santos, 78, o Enciclopédia, no Carioca da Gema. Botafoguense de coração e de bairro, o artista, embecado num terno branco e azul de portelense, atravessa a Rua Mem de Sá e resolve entrar no Capela. Surpresa: uma imediata salva de palmas de uns 50 presentes. De pé. Um desagravo emocionante, antológico. Walter se senta. Vem o papo. O gerente Chico disse que até Roberto Carlos e Tim Maia já cantaram na parte de cima onde hoje há um depósito de bebida. Mas aqui no restaurante ninguém canta alto, não tem cantoria. Walter, longe, avisa: ''Nunca mais vou cantar aqui. Agora vou ao Rival, com Jair Rodrigues''.
A atriz Ângela Leal vai conduzir os dois pelas mãos ao palco nesta quarta-feira. Ganharam o prêmio BR de cantor do ano semanas atrás. Mas, a premiação foi um dia confuso. Jair Rodrigues não apareceu, e os filhos Jairzinho e Luciana Melo estariam na Europa. Agraciado ausente e sem representante, foi decidido, por aclamação, numa bagunça, que o prêmio iria para...? Tem coisas que só acontecem com Walter Alfaiate.
O novo CD Samba na medida é trocadilho com a profissão de alfaiate. A primeira faixa é Bateram em minha porta, samba de bairro, de Botafogo, de autor desconhecido.
Digo a Walter, que mal conheço, que conheci Vavá, o último malandro de Botafogo, um negro alto, magro, passista e namorador. Vavá, que deve ter sido de família real na África, disse-me uma vez, já com quase 80 anos: ''Tudo o que fiz na vida foi loucura, filhos, confusões e esse sambinha''. E cantarolou: ''Eu bebo, não deixarei de cantar, eu canto, não deixarei de sambar, eu quero, quando a morte vier, que me ache no samba com muita cachaça, com muita mulher, eu bebo''. Walter me corrige a letra. É assim: ''Que me encontre no samba, com muita bebida, com muita mulher'', e cantarolou no Capela, só para a nossa mesa ouvir. Completou em seguida: ''Mas não é de Vavá. É de autor desconhecido. Sempre cantávamos isso em Botafogo''.
Vavá, lustrador nas horas vagas, teve um minutinho de fama na 1ª página do JB. Uma foto de Magalhães Pinto, em campanha de anticandidato à Presidência, com o Vavá malandro de mão enorme - aliás, usava o polegar e o mindinho como puãs para segurar pelas extremidades os copos longos de álcool. Mas empalmou-a sobre a careca do político mineiro. Usava dessas camisas tipo regata, rede, malhas que não protegem nada o dorso, apenas o exibem. É comum vê-las no Maracanã. A morte encontrou Vavá como mendigo, com elefantíase, se arrastando pelas calçadas do bairro que amou.
Pergunto a Walter se alguém já encomendou um terno verde abacate como o que ele canta no CD. Brinca: ''Não, ninguém porque no Brasil ninguém é Hulk''. Pergunto se a catuaba, que ele também canta no CD, não estaria defasada. Brinca: ''Dizem que estão saindo uns remedinhos ainda melhores do que aquele primeiro''. E ri. É a Lapa.
Maior arquiteto do Brasil, um bom pai: Niemeyer, lingüisticamente, um bom trisavô, aos 95 anos. Mas como é tão raro ser tataravô, o nosso matricial inventor de espaços já merece ser um deles, inventor privilegiado das curvas da longevidade. Há quem teorize estranhamente que tataravô não é nem parente por ser lembrança muito distante. Outros vão mais longe e duvidam até da existência de tataravô, como se o parentesco fosse só relação histórica, de perpetuação, e não de beijos e bênçãos.