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Tesouros inimagináveis

O Rio se orgulha de Odaléa e Jorge Brando, Hecilda e Sérgio Fadel, Maria Cecília e Paulo Geyer, Gilberto Chateaubriand e a família Roberto Marinho, entre outros, todos colecionadores que, ao longo de suas vidas vitoriosas, vêm montando acervos maravilhosos. Essas coleções de arte, quase todas ainda sem espaço público para admiração permanente, são a parte badalada da história.

Mas o Rio tem também colecionadores que, num trabalho meticuloso, com sacrifício, retraçam e guardam o passado da cidade. Quase todos velhinhos aposentados e abnegados, paira sobre eles a máxima de que se deve evitar a fama para que fornecedores não elevem os preços dos itens colecionáveis.

Ginecologista, o paulista Roberto Pedroso apaixonou-se pelo Rio e, a mil por hora, já colecionou 130 itens, de caixa de fósforo a envelopes de cordas de violão (mais de 500 diferentes). O que pensar dessas ventarolas com a marca de Ambev que inundam a Sapucaí no Carnaval? Sim, guardáveis. Mas ventarola do tempo de Lamartine Babo é outra coisa. Dizem, brincando, que Pedroso coleciona até nós de arame farpado.

Elísio Custódio de O. Belchior tem 4 mil postais do Rio. Não parece muito. Mas são apenas imagens anteriores a 1930. Antes, ele emprestava cartões para dupla exposição em jornais. Parou depois que 100 peças foram roubadas de uma repórter. Em números absolutos, há José Andrea, 450 mil fotos e postais do país e do mundo. Benício Guimarães, o maior especialista em Leopoldina no Brasil, com 8 mil fotos de estações, rotundas e ferrovias. A maior parte ele mesmo clicou. Também é dono de boa coleção de selo com o tema. Paulo Bodmer, entre postais, gravuras e bronzes, tem acervo curiosíssimo de curingas de baralho. Mario Figueiredo, além de numismata, possui a maior coleção de fichas de tudo, de orelhões a engenhos de açúcar (moeda particular de fazendeiros) e até da barca da Cantareira, que fazia a travessia Rio-Niterói por volta de 1870.

A variedade de itens poderia dar a entender que são cabeças dispersas. Mas não. São específicos e concentrados. Os homens, maioria. Mas desponta no meio Yolanda Roberto, precursora de um conservar sistemático e dona de uma das maiores coleções de postais cariocas.

Existe uma verdadeira escola nessa matéria. O início da aventura começa aos sábados e domingos pela manhã, na Praça 15 e sob as árvores do centenário Passeio Público, lugares do grande troca-troca. Ali crianças são vistas de mãos dadas com os avós.

Para onde irão esses acervos? Alguns dizem que gostariam de doar com exigências, como a não-dispersão, ou uma pequena homenagem póstuma, tipo coleção Fulano de Tal, ou estante Fulano de Tal. Poderiam ficar na Biblioteca Nacional, no Instituto Histórico Geográfico, nos Arquivo Nacional e da Cidade, ou nos Iphans da vida. Não será hora de a Cultura, sob a liderança criativa de Gilberto Gil, pensar um caminho para esse maravilhoso legado carioca? Se hesitar, Bill Gates leva tudo.

Octávio Victor do Espírito Santo se orgulha de seus postais do Rio, também até 1930. Antônio Italo Giaccomelli, de 20 mil imagens de navio. Heitor Herbeto Salles, de rótulos de bebidas brasileiras e 5 mil postais de mulheres nuas. Samuel Gorberg tem as estampas Eucalol e editou o livro do sabonete. Alberto Cohen é dono de centenas de postais da Pedra da Gávea. José Pereira de Andrade, aluno de Manuel Bandeira, tem coleção afetiva do Rio. Poucos, mas queridos postais. Francisco Pfaltzgraf guarda, desde a infância, tudo sobre o Graf Zeppelin.

Entre os mais jovens, Joca, milhares de cartazes de cinema, fotogramas e até histórias guardadas oralmente. Ou Marcelo del Cima, maior colecionador de imagens de teatro, fotos de todas as nossas divas, nossas e visitantes, vivas e mortas. O artista Waltércio Caldas, imagens do Pão de Açúçar, numa doce obsessão. Parabéns a todos e a outros aqui não citados!

[23/JUN/2003]

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