Completa 115 anos o Dia do Trabalho e pouco se fala das suas origens. A greve geral de 1º de Maio de 1886 organizada pelos anarquistas em Chicago contou com a adesão de um milhão de trabalhadores em todo o território americano. Pretendia apenas mudar a jornada de trabalho de treze horas diárias para oito.
A grande passeata do dia seguinte foi duramente reprimida pela polícia: terminou em dezenas de mortes e, em seguida, no enforcamento de quatro dos líderes grevistas (todos tipógrafos, profissão que hoje não existe mais). Para homenageá-los, na Internacional Socialista reunida em Londres em 1889, decidiu-se criar o Dia Internacional do Trabalho reconhecido em todo o mundo - menos nos EUA onde o ''Labour Day'' comemora-se em Setembro. Mas em 1890, o Congresso americano adotava a jornada de oito horas e. em 1893, a justiça absolvia os acusados pela greve de Chicago.
Dia mitológico no calendário comunista, o antigo fervor reaparece nas grandes paradas cívico-militares na China, Coréia do Norte e Cuba. Lembram peças de museu: num mundo onde o trabalho regular e remunerado tornou-se privilégio, o pleito de Chicago, paradoxalmente, parece deslocado e ultrapassado - as legiões de desempregados, subempregados, escravizados ou terceirizados do mundo inteiro não se incomodariam em trocar a insegurança atual pelas desumanas treze horas da antiga jornada.
O 1º de Maio deste ano é revolucionário num outro sentido: a ampliação da União Européia de 15 para 25 estados-membros é uma façanha geopolítica sem paralelo na história da humanidade. Mas é, igualmente, um feito socialista na medida em que o compromisso internacionalista (nele compreendido a repulsa à xenofobia), é parte essencial de qualquer programa que se pretenda progressista.
E, no entanto, entre os precursores e defensores do projeto europeísta estão conservadores históricos como Winston Churchill que em 1946, um ano depois da tenebrosa 2ª Guerra Mundial, proclamava a necessidade da criação dos Estados Unidos da Europa.
Também o general americano George Marshall que em 1947 lançou o plano que leva o seu nome destinado à reconstrução do Velho Mundo e, sobretudo, a dupla Charles de Gaulle-Konrad Adenauer, os líderes da França e Alemanha que decidiram encerrar a sucessão de disputas e conflitos, dois deles em escala mundial.
Embora o milagre europeu tenha forte conotação econômica (a começar pelo projeto inicial da Comunidade do Carvão e do Aço de 1952), repousa basicamente em duas idéias-força essencialmente humanistas. Uma delas a convicção de que a unificação era o único caminho para chegar à paz. E paz não é apenas ausência de guerras, é também segurança social.
A outra matriz foi a inabalável crença na democracia. Nenhuma das grandes decisões ao longo dos 53 anos de existência do projeto europeu foi tomada na marra, à revelia dos respectivos povos.
A questão das soberanias nacionais até então resolvida nos campos de batalha passou a ser decidida nas urnas, sob a proteção do estado de direito, garantidas as discordâncias das maiorias - razão pela qual nem todos os 15 atuais membros fazem parte do sistema monetário. Três deles, inclusive a tradicionalíssima Inglaterra, continuam aferrados às suas moedas.
Nos anos 20 do século passado, intelectuais como Romain Rolland e Stefan Zweig pediam o fim das fronteiras européias porque ao lado delas cavavam-se as trincheiras. Agora derrubam-se divisórias ainda mais perniciosas porque foram fincadas nas mentes e no espírito. A entrada de três antigas repúblicas soviéticas, uma ex-república iugoslava e quatro países da Cortina de Ferro marcam a varredura final dos escombros do Muro de Berlim e da Era das Ideologias.
As diferenças partidárias dentro desta Europa dos 25 perdem a virulência, passam a segundo plano, minimizadas pelos objetivos políticos e sociais comuns. Federalizaram-se as jornadas de trabalho e o próprio trabalho. Os confrontos confinam-se aos parlamentos e como não há vitoriosos nem vencidos não há revanchismo. Apenas candidaturas. Como a da Turquia que ainda não preenche os requisitos de um regime plenamente democrático (embora um pedaço dela, em Chipre, tenha sido aceito).
De Carlos Magno a Hitler, passando por Carlos Quinto e Napoleão todos sonharam em unificar a Europa. Sob o seu tacão. A ferro e fogo. Agora conseguiu-se, com o simples manuseio dos livros de história.