E-mails e telefones
Shopping JB Online
Home
Tempo Real

Colunistas
Coisas da Política
Uma guerra de perdedores

Informe JB
Fome de emprego

Cartas
113 anos do JB

Horóscopo

Alberto Dines
História, modos de usar

Gente
Asdrúbal balzaquiano

Charge Online

Marcia Peltier
Caras de todos

Nas Páginas da História
1º de maio no JB

Informe Econômico
Revanche elétrica

Leandro Konder
A malandragem é universal

Boechat
Riscos

Gilberto Amaral
Exercício de autoridade

Hildegard Angel

Anna Ramalho
Aquarela do Brasil

 


História, modos de usar


Completa 115 anos o Dia do Trabalho e pouco se fala das suas origens. A greve geral de 1º de Maio de 1886 organizada pelos anarquistas em Chicago contou com a adesão de um milhão de trabalhadores em todo o território americano. Pretendia apenas mudar a jornada de trabalho de treze horas diárias para oito.

A grande passeata do dia seguinte foi duramente reprimida pela polícia: terminou em dezenas de mortes e, em seguida, no enforcamento de quatro dos líderes grevistas (todos tipógrafos, profissão que hoje não existe mais). Para homenageá-los, na Internacional Socialista reunida em Londres em 1889, decidiu-se criar o Dia Internacional do Trabalho reconhecido em todo o mundo - menos nos EUA onde o ''Labour Day'' comemora-se em Setembro. Mas em 1890, o Congresso americano adotava a jornada de oito horas e. em 1893, a justiça absolvia os acusados pela greve de Chicago.

Dia mitológico no calendário comunista, o antigo fervor reaparece nas grandes paradas cívico-militares na China, Coréia do Norte e Cuba. Lembram peças de museu: num mundo onde o trabalho regular e remunerado tornou-se privilégio, o pleito de Chicago, paradoxalmente, parece deslocado e ultrapassado - as legiões de desempregados, subempregados, escravizados ou terceirizados do mundo inteiro não se incomodariam em trocar a insegurança atual pelas desumanas treze horas da antiga jornada.

O 1º de Maio deste ano é revolucionário num outro sentido: a ampliação da União Européia de 15 para 25 estados-membros é uma façanha geopolítica sem paralelo na história da humanidade. Mas é, igualmente, um feito socialista na medida em que o compromisso internacionalista (nele compreendido a repulsa à xenofobia), é parte essencial de qualquer programa que se pretenda progressista.

E, no entanto, entre os precursores e defensores do projeto europeísta estão conservadores históricos como Winston Churchill que em 1946, um ano depois da tenebrosa 2ª Guerra Mundial, proclamava a necessidade da criação dos Estados Unidos da Europa.

Também o general americano George Marshall que em 1947 lançou o plano que leva o seu nome destinado à reconstrução do Velho Mundo e, sobretudo, a dupla Charles de Gaulle-Konrad Adenauer, os líderes da França e Alemanha que decidiram encerrar a sucessão de disputas e conflitos, dois deles em escala mundial.

Embora o milagre europeu tenha forte conotação econômica (a começar pelo projeto inicial da Comunidade do Carvão e do Aço de 1952), repousa basicamente em duas idéias-força essencialmente humanistas. Uma delas a convicção de que a unificação era o único caminho para chegar à paz. E paz não é apenas ausência de guerras, é também segurança social.

A outra matriz foi a inabalável crença na democracia. Nenhuma das grandes decisões ao longo dos 53 anos de existência do projeto europeu foi tomada na marra, à revelia dos respectivos povos.

A questão das soberanias nacionais até então resolvida nos campos de batalha passou a ser decidida nas urnas, sob a proteção do estado de direito, garantidas as discordâncias das maiorias - razão pela qual nem todos os 15 atuais membros fazem parte do sistema monetário. Três deles, inclusive a tradicionalíssima Inglaterra, continuam aferrados às suas moedas.

Nos anos 20 do século passado, intelectuais como Romain Rolland e Stefan Zweig pediam o fim das fronteiras européias porque ao lado delas cavavam-se as trincheiras. Agora derrubam-se divisórias ainda mais perniciosas porque foram fincadas nas mentes e no espírito. A entrada de três antigas repúblicas soviéticas, uma ex-república iugoslava e quatro países da Cortina de Ferro marcam a varredura final dos escombros do Muro de Berlim e da Era das Ideologias.

As diferenças partidárias dentro desta Europa dos 25 perdem a virulência, passam a segundo plano, minimizadas pelos objetivos políticos e sociais comuns. Federalizaram-se as jornadas de trabalho e o próprio trabalho. Os confrontos confinam-se aos parlamentos e como não há vitoriosos nem vencidos não há revanchismo. Apenas candidaturas. Como a da Turquia que ainda não preenche os requisitos de um regime plenamente democrático (embora um pedaço dela, em Chipre, tenha sido aceito).

De Carlos Magno a Hitler, passando por Carlos Quinto e Napoleão todos sonharam em unificar a Europa. Sob o seu tacão. A ferro e fogo. Agora conseguiu-se, com o simples manuseio dos livros de história.


Aumentar letras Versão para imprimir Diminuir letras Enviar matéria

[01/MAI/2004]


   Home > Colunas > Alberto Dines

Tempo Real | Brasil | Economia | Esportes | Rio | Internacional | Colunas
Internet | Caderno B | Domingo | Programa | Musicalidade | Viagem | Acelera
Idéias | Horóscopo | Especiais | Opinião | Editorial | Charge | Cartas