Golpe ou contragolpe, quartelada ou revolução, parte da Guerra Fria mundial ou
bogotazo latino-americano? A derrubada de João Goulart completa o seu 40º aniversário e apesar do empenho rememorativo só produziu uma constatação - foram os 21 anos mais negros e mais violentos da nossa história.
De concreto, as vítimas e a dor, o resto é controvérsia. E não poderia ser diferente: se a historiografia fosse conclusiva e indubitável, não necessitaríamos de historiógrafos. É razoável a tese de que o confronto de 1964 resultou de uma descrença generalizada na democracia. Ainda não apareceu análise alternativa mais sucinta e clara. Não obstante o fervor dos dois lados em defesa das respectivas ''legalidades'', a disputa que se trava até hoje entre os herdeiros e descendentes das duas correntes evidencia uma crise de valores ainda não sanada.
A idéia republicana, embora ultimamente badalada, ainda não está suficientemente assimilada. A República começou com um equívoco - proclamada por uma facção de militares autocráticos - e continua ambígua, achincalhada e incompreendida.
A melhor prova desta persistente incompreensão ou disfunção republicana é a crise que começou em 13 de fevereiro e, na melhor das hipóteses, parece destinada a espraiar-se até meados do ano. Antes que afoitos tentem forçar identidades ou relações entre 1964 e 2004 é bom que se diga que além do dígito final, nada, absolutamente nada, assemelha aquela fragmentação nuclear, institucional (fruto de uma sucessão de traumas) a este surto galopante de estultices políticas.
Esquecido do seu mandato e da sua majestade, o Executivo apequena-se. Levou um susto e mostrou o tamanho do susto. Permitiu que uma grave revelação de improbidade numa das dependências do palácio presidencial ganhasse dimensão gravíssima e contaminasse o próprio Estado. Gagueja há seis semanas e está permitindo que uma crise localizada converta-se numa crise de governo.
Ao associar-se ao carbonário Leonel Brizola, a oposição mostra-se à altura, igualmente tosca, sem inspiração, incapaz de impor-se como alternativa. O ex-governador gaúcho merece todo o respeito pessoal pelos 60 anos de vida política mas se até 1961 (quando comandou a cruzada pela posse de Jango), seus feitos são meritórios, daí para frente foram desastrosos. Sua ambição desmedida e seu fundamentalismo político encurralaram o cunhado-presidente levando-o a uma radicalização que sua natureza tíbia e medíocre organicamente rejeitava.
Que o PDT por vocação do seu líder queira atear fogo ao circo é problema do seu eleitorado, mas o eleitorado do PSDB ou do PFL dificilmente aceitará esta parceria oportunista, míope e irresponsável.
Lula não tem nada de Jango mas seu improviso diante de um grupo de músicos hip-hop atribuindo a culpa da atual crise aos ''conservadores'' é de um primarismo ideológico exemplar. Dito por um Roberto Requião ainda imerso na era dos flinstones não causaria surpresas mas na boca de um Chefe de Estado moderno é preocupante.
Engessado pelo conservadorismo está o governo, quem não quer mexer ou mexer-se é o governo. A passividade com que o Estado enfrenta há duas semanas a insubordinação da Polícia Federal encarregada de defendê-lo e só agora acordou para declará-la ''inaceitável'' reflete um comportamento que beira à paralisia.
O processo político e o processo decisório não podem desmoralizar-se sob pena de bagunçar ritos e procedimentos que os tornam merecedores do respeito da sociedade. É compreensível o desconforto do PT quando o seu atributo ético foi colocado sob suspeita. Mas a incapacidade do governo do PT para perceber que estamos no mesmo barco é ofensiva. Ao invés de buscar solidariedade para reencontrar a esperança, aferra-se às más companhias não muito diferentes daquelas que o desgraçaram.
Anunciar o gasto de oito milhões em publicidade para mostrar que as coisas estão andando e dias depois capitular às exigências dos aliados liberando mais 1,5 bilhão para emendas dos parlamentares não é apenas perdulário, é a consagração do fisiologismo. Desrespeito à função fiscalizadora do Legislativo, desdém pela imagem da República.