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O massacre e a greve
[13/MAR/2004]
Com os quase 200 mortos em Madri, o terror obteve novo triunfo.
Ampliou a zona do medo, cravou no coração da Europa a sensação de que a guerra contemporânea é mundial, decretou o fim dos inocentes, estabeleceu o primado da morte como arma política.
Graças às diferenças do fuso horário, nossas autoridades serviram-se dos primeiros indícios difundidos pelo governo e meios de comunicação espanhóis de que o banho de sangue teria sido obra do ETA e condenaram os seus autores de forma cabal e veemente.
Se na tarde de quinta a Al Qaida, ou outro grupo islâmico, já tivesse aparecido como suspeita pela carnificina madrilena não seria de estranhar que em meio às mensagens de apoio e pesar aparecessem as conjunções ''mas'', e ''porém'' que atenuaram o repúdio brasileiro ao assassinato em Bagdá do diplomata Sérgio Vieira de Melo.
Ontem, os especialistas e acadêmicos convocados às pressas pelas rádios e tevês anteciparam-se aos investigadores espanhóis e passaram a insistir na hipótese islâmica. Se não justificada, pelo menos ''compreensível'', esta seria uma represália ao apoio do governo de José Maria Aznar à invasão do Iraque pela dupla Bush-Blair.
Nosso distanciamento geográfico dos principais conflitos internacionais, longe de favorecer, estimula um perigoso distanciamento moral. Somado às fragilidades institucionais e tibiezas políticas, nos coloca nas zonas de perigo imediato.
A absurda greve de quase uma semana na Polícia Federal revela em toda a sua extensão a vulnerabilidade do Estado brasileiro.
O país, o povo, o governo e o regime democrático estão inteiramente desprotegidos, entregues à sorte e à esperança de que Deus seja brasileiro.
Os congestionamentos nos aeroportos e nos postos de fronteira são apenas os sinais mais visíveis e dramáticos dessa autêntica deserção da maioria dos encarregados da nossa segurança interna.
A avaliação institucional, que não aparece nas fotos, é mais aterradora: em defesa de interesses corporativos - no caso, mesquinhos, porque pisoteiam o interesse nacional - o Brasil está, neste momento, rigorosamente à mercê do crime organizado, das máfias, das redes de pirataria e contrabando, da bandidagem interestadual e do terrorismo internacional.
No Título V da Constituição Federal (Defesa do Estado e Instituições Democráticas), o capítulo II é dedicado às Forças Armadas, encarregadas de defender, do inimigo externo, o território e a soberania. Logo em seguida, no capítulo III da Carta Magna, que trata da segurança e da ordem pública, da incolumidade das pessoas e do patrimônio, a Polícia Federal é o principal agente de defesa.
Ao abdicar de sua missão constitucional, os grevistas estão traindo os seus compromissos legais, cívicos e éticos com toda a cidadania.
Sentem-se prejudicados mas prejudicam a todos. Querem ganhar melhor para combater a delinqüência mas, na omissão, comportam-se como seus cúmplices passivos, incursos no crime de lesa-razão, lesa-profissão, lesa-sociedade e lesa-pátria.
É cínica e perversa a ''operação padrão'' adotada por aqueles policiais designados pelos colegas a comparecer ao trabalho.
O pretendido rigor neste momento é apenas uma forma de despistar a falta de rigor na semana passada. O padrão é para ser aplicado todos os dias, caso contrário será prova de omissão. É deletéria e farsesca a encenação de entregar as armas porque revela em toda a extensão a vulnerabilidade a que todos estamos expostos.
Ainda desnorteado pelo escândalo que envolveu um assessor da Presidência há quatro semanas, o governo não consegue acordar para oferecer aos governados a imperiosa sensação de firmeza e proteção.
Mesmo negando-se a negociar, passa a impressão de fragilidade, dá sinais de que perdeu a iniciativa, refém das exigências e táticas dos grevistas.
O terrorismo cada vez mais organizado, mais amplo e mais ousado, exige das polícias e agências federais dos países interessados em combatê-lo uma combinação de profissionalismo e patriotismo que, por aqui, parece arquivada.
Enquanto a Europa repensa sua estratégia contra o terrorismo e o mundo estende sua solidariedade à Espanha enlutada, nós lhe oferecemos o desamparo.
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