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Os perigos da Midiabrás


A bela evocação dos 50 anos de fundação da Petrobrás através da reprodução das primeiras páginas de alguns jornais da época sugere uma reflexão sobre o papel da imprensa em nossa história política. Deve ter sido acidental o esquecimento da contribuição da UDN, com as figuras de Bilac Pinto e Juracy Magalhães, na viabilização da nossa maior empresa. Mas a oportuna incursão pelo túnel do tempo só fortalece a convicção de que um jornalismo atento e diligente é essencial para a construção da memória nacional.

Dias antes, a mídia entrou num campo minado ao formalizar sua proposta para uma política de financiamento do BNDES. Se, por um lado, o comunicado conjunto de ANJ, Aner e Abert - entidades que congregam jornais, revistas, rádio e TVs - oferece a saudável disposição de transparência e a inequívoca disposição de independência, as circunstâncias em que essas negociações ocorrem são graves.

Os interlocutores estão cônscios das dimensões da situação e das respectivas responsabilidades, por isso dispõem-se a sentar à mesa. No entanto, é isso que inquieta. O governo federal não esconde a sua avaliação de que o estado da mídia é questão de interesse do Estado. Em outras palavras, a atual situação econômica dos maiores grupos de comunicação do país tem dimensões de crise sistêmica. A percepção é correta e a reação, legítima. Simultaneamente, é preciso ter em conta que, apesar do festivo anúncio do fim das vacas magras, a imagem do governo oferece sinais de desgaste.

Examinados separadamente, os diagnósticos não chegariam a soar os alarmes. Juntos e justapostos, causam calafrios. Isso porque não estamos lidando com uma situação sazonal ou conjuntural capaz de resolver-se a curto ou médio prazo. Estamos em vias de armar no país um desenho e uma estrutura midiáticos com características perenes.

Quando o presidente Campos Salles (1898-1902) tirou os jornais do sufoco em que viviam, estabeleceram-se regras informais que acabaram consagradas nos 100 anos seguintes. O episódio deve funcionar como referência, por mais inconfortável que seja.

Com o pano de fundo das eleições de 2004 (decisivas para garantir uma reeleição presidencial) uma imprensa condicionada pelas negociações sobre o seu futuro perderá, digamos, sua espontaneidade. E este governo não brinca em serviço. É novo, mas conhece a multimilenar ciência do exercício do poder. Basta ver como, de repente, num espaço de dias, castigou a rebeldia do senador ACM - até então na categoria de simpático adversário - ao reabrir com toda a força o engavetado caso do megagrampo da Bahia.

A mídia, por outro lado, apresenta os seus pleitos em péssima hora. O Caso Gugu não é fato isolado, acidental, é a ponta de um gigantesco iceberg. E nele não está abarracada apenas uma rede de TV ou os subgugus e antigugus. O apresentador é o paradigma de um híbrido de jornalismo com circo desenvolvido à sombra da complacência - e às vezes até da cumplicidade - da mídia impressa. Basta lembrar a má vontade das cassandras da liberdade de expressão quando o então ministro da Justiça, José Gregori, tentou enquadrar a baixaria televisiva nos horários apropriados.

Essa é a mídia que um governo comprometido com mudanças quer como parceira? Quais as contrapartidas que serão oferecidas ao contribuinte-leitor-ouvinte-telespectador de que algo vai mudar na qualidade da informação e do entretenimento que consome? Quais as garantias que os tomadores darão aos financiadores visando a estabelecer condições para um sistema de comunicação menos precário e menos sujeito à sedução de bolhas, modismos e miragens?

A situação é seria demais para, como diz o vulgo, melar no nascedouro a possibilidade de um ''compromisso histórico'' entre o Primeiro Poder e aquele que já ostentou o título de Quarto Poder. Mas, justamente nesta hora, é imperioso recordar que a crise ganhou essas dimensões por culpa de um modelo de gestão e de um processo decisório que excluíram os jornalistas, exatamente aqueles que são os mais vocacionados para encarar as responsabilidades da imprensa com a sociedade.

Se jornalistas fossem consultados, a nota das três entidades não teria sido anunciada com tanta discrição. A reserva é comprometedora e confronta o próprio texto. A mídia não pode gozar de um ''tratamento especial'' na mídia. Nem em qualquer outra instituição.

Por outro lado, é indispensável que as duas partes examinem as demais alternativas antes de avançar nas negociações.

Alguns empresários mais pessimistas (ou realistas) afirmam que a crise da mídia só tem duas saídas: ou o BNDES ou o investidor estrangeiro. Outros alertam para o perigo da Midiabrás. Mais uma razão para tirar das sombras assunto tão grave.


[04/OUT/2003]


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