Delinqüências se atraem, a bandidagem abomina a especialização e aposta nas frentes amplas. O crime é organizado por vocação, está na sua natureza buscar alianças em todos os setores à margem da lei.
As denúncias de que Chiquinho da Mangueira - vice-rei da Estação Primeira, dublê de secretário de Turismo do estado e prócer esportivo - seria um dos protetores do narcotráfico local não diferem do caso dos sindicalistas paulistanos implicados na máfia dos transportes, onde, além das propinas para a organização de greves e destruição de veículos, são também acusados de chantagem, ameaças de morte e conexões com o narcotráfico.
O mangueirense foi acusado em cerimônia pública pelo tenente-coronel PM Erir Ribeiro, que, como prêmio pela coragem, foi preso por ordem do casal governador do Rio de Janeiro. A Cosa Nostra que controla os transportes públicos em São Paulo está sendo investigada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, que já mandou para o xilindró 14 dirigentes do Sindicato de Motoristas e Cobradores de Ônibus.
Não surpreende a flagrante diferença de comportamento das autoridades dos dois estados. A forma acintosa com que a CPI da máfia dos fiscais fluminenses livrou o ex-governador Garotinho de depoimentos e investigações estabeleceu um paradigma moral a partir do qual consagrou-se a leniência neste pedaço do Brasil. O diploma de inocência concedido liminarmente ao ex-governador no caso do propinoduto é um aviso de que no Estado do Rio a prevaricação está institucionalizada.
O que assusta é a incapacidade das autoridades federais de detectar a dimensão da complacência local. Um governo estadual cercado de tantas suspeições não tem legitimidade para ser juiz em casos em que é parte. De nada adiantará a tal tropa de elite superequipada para enfrentar o crime se o Estado do Rio continuar como um feudo da família Mateus onde impera a impunidade.
É inconcebível que um governo estadual acusado formal e publicamente por uma alta patente policial de proteger os traficantes seja investido do poder de julgar seu acusador. Onde está o Ministério Público? Onde meteu-se a Polícia Federal que ainda não deu o ar de sua graça?
As prontas e bem organizadas manifestações de solidariedade ao cartola acusado de amigo dos traficantes demonstram o grau de entrosamento entre a máquina política e as diferentes ramificações do crime. O sistema de redes é uma realidade social que funciona tanto na porção sadia da comunidade como nos esgotos da ilicitude.
Está sendo descerrado no Rio um monumental organograma da marginalidade mas ninguém quer enxergar sua verdadeira dimensão. É mais confortável cuidar do crime miúdo, segmentado. Afinal, o governo do PT não pode brigar com o PSB de Garotinho no momento em que briga com os seus rebeldes e até com o falso mineiro que instalou na vice-presidência.
As máfias de Nova York e Chicago sobreviveram e prosperaram ao longo de meio século porque estavam protegidas pelas diferentes conexões com a banda podre da política local, com sindicatos ''barra pesada'' como foi a Teamsters Union. A máfia siciliana sustentou-se desde o século XIX agarrada à corrupção institucionalizada no aparelho do Estado.
Tanto nos EUA com na Itália só foram derrotadas depois da intervenção concatenada de diversas agências nacionais. Al Capone foi pego pelos agentes da Receita Federal americana e a Operação Mãos Limpas italiana foi bem-sucedida porque, além de caçar bandidos, foi atrás daqueles que protegiam e serviam-se dos bandidos.
Quando o repórter Tim Lopes foi assassinado desvendou-se a conexão entre o narcotráfico, a indústria funk e a pirataria fonográfica. Agora aparecem os indícios de outra conexão: a cartolagem futebolística, a política e o narcotráfico. A marginália não tem limites. Em São Paulo enroscou-se num sindicato que em apenas cinco meses martirizou a cidade com nove greves e uma onda de vandalismo jamais vista. Se o caso ficasse restrito à esfera da Justiça do Trabalho, jamais seria lancetado.
Ao contrário do que desejam os governadores do Estado do Rio, o caso do tenente-coronel Erir Ribeiro não pode confinar-se à esfera disciplinar. O secretário de Turismo é homem de confiança da governadora e do seu consorte, o secretário de Segurança. Foi acusado por um policial com uma folha de serviços impecável que deixou o posto aplaudido pela comunidade de Mangueira e pela corporação policial.
Com a ajuda da demagogia e da parolagem de Cantinflas, está sendo montada uma nova farsa para humilhar cariocas, fluminenses e encobrir o grande conglomerado do crime que apossou-se do estado.
Alberto Dines escreve para o JB aos sábados