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Brasil pode ter transplante de face

Técnica já é dominada pelos cirurgiões, mas deve ser usada em casos específicos pelo risco maior de rejeição

Claudia Bojunga

Um feito que parecia possível apenas na ficção científica foi realizado na semana passada: um transplante de face. Segundo médicos brasileiros, a operação inédita, realizada em uma francesa de 38 anos que teve parte do rosto esfacelado por um cão, já pode ser realizada no Brasil.

- Temos toda a condição de fazer o procedimento. O país é referência mundial em cirurgia plástica - explica ao JB o cirurgião plástico da 28ª Enfermaria da Santa Casa, Ricardo Cavalcanti.

Uma das diretoras da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Vera Cardim, afirma que a técnica de transposição vascular, de tecidos e nervosa já é dominada desde os anos setenta. Um dos maiores especialistas do mundo, o cirurgião plástico Ivo Pitanguy confirma.

- Todos os médicos brasileiros dessa área estão capacitados. Mas uma cirurgia como essa só é justificada se acontecerem grandes perdas como em caso de queimadura ou acidente - diz Pitanguy.

- O problema é que o tecido de outra pessoa pode causar rejeição. Por isso o paciente precisa tomar imunossupressores para o resto da vida, o que traz riscos - esclarece Vera.

Tais drogas diminuem a ação do sistema imunológico para impedir que reaja ao ''corpo estranho'' que é o pedaço do novo rosto. Mas, ao mesmo tempo, faz com que o organismo fique sem defesa, deixando o indivíduo exposto a infecções. A pessoa pode até morrer de uma simples gripe.

A respeito da operação pioneira, realizada pela equipe do professor Jean-Michel Dubernard e do professor Bernard Devauchelle, em Lyon, na França, Pitanguy reitera:

- A espera agora está muito mais na resposta imunológica do que em relação à técnica - observa Pitanguy.

O cirurgião plástico explica que é necessário aguardar um período para saber se a boca, o queixo e o nariz novos colocados na primeira operação vão ser rejeitados.

Segundo Vera, se isso não acontecer em 15 ou 20 dias, há uma grande chance de o transplante dar certo. Mas mesmo assim, existe para o resto da vida a possibilidade dessas partes não se integrarem devidamente à face da paciente. Nesse caso, o tecido vai necrosar e terá de ser retirado.

A cirurgia ainda não tinha sido feita em nenhum outro lugar do mundo devido à complexidade do transplante de pele, um órgão que é extremamente diferenciado: fabrica, por exemplo sebo e vários tipos de proteína. Isso faz com que seja muito suscetível a rejeição.

O cirurgião plástico e professor do setor de microcirurgia e paralisia facial da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) An Wan Ching, afirma que o principal dilema ético consiste em avaliar se mesmo com todos os riscos existe a necessidade de se realizar o transplante de rosto. A francesa, que não teve seu nome revelado, ficou completamente desfigurada, tinha dificuldade de falar, não conseguia comer normalmente e sofria de um trauma psicológico. Quando saía de casa tinha que usar uma máscara cirúrgica. Os médicos da equipe que a operaram declararam que assim que a viram decidiram realizar o procedimento.

Ontem, Dubernard, criticou a cobertura de alguns meios de comunicação que revelaram informações sigilosas sobre a operação, como a identidade da doadora e da paciente.


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[06/DEZ/2005]


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