Duas rodas e muitas estrelas

Passeios noturnos de bicicleta em grupo voltam a fazer parte da paisagem do Rio e a surpreender pedestres e motoristas

Branca Nunes

[26/MAR/2006]

Quem tem mais de vinte e cinco anos se recorda perfeitamente daquelas noites de terça-feira: multidões de ciclistas invadiam as ruas do Rio para pedalar sob a luz da lua e das estrelas. No auge do evento, em 1994, mais de 4 mil bicicletas chegaram a percorrer juntas a orla da Zona Sul. Passados 12 anos do último Tuesday Night Bikers, como se chamava a pedalada grupal, atletas de diversos lugares voltaram a se reunir para aproveitar a madrugada cavalgando uma ''magrela''.

- Na época, quase não havia ciclovia e nós tínhamos de disputar cada centímetro de rua com os carros. Hoje a pedalada é mais segura. O que continua igual é a beleza da paisagem noturna da cidade - compara Rômulo Sinigov, 70 anos. Ele participou do passeio organizado pela loja Kraft Bikes na quinta-feira.

Rômulo, cujos cabelos brancos contrastam com o porte atlético, pedalou ao lado de Bruna Soares, 26 anos. Ela experimentava pela primeira vez a noitada esportiva. Eles faziam parte de um grupo de cinqüenta pessoas, que percorreram o trajeto entre Laranjeiras e Leme.

- Adoro andar de bicicleta, mas tenho medo de passear sozinha. Hoje, além de estar me sentindo supersegura, conheci pessoas que têm os mesmos interesses que eu - conta Bruna.

Em todos os passeios, a proposta é a mesma: pedalar à noite com segurança, trocar informações sobre equipamentos e percursos e estimular o uso da bicicleta. De quebra, quem participa dos eventos é premiado com visões incomuns da cidade - os aviões que decolam praticamente sobre os ciclistas na cabeceira do aeroporto Santos Dumont; o túnel formado pela sombra das árvores ao longo da ciclovia do Parque do Flamengo; e as luzes das embarcações na Marina da Glória são alguns dos segredos guardados para as pedaladas noturnas.

Para participar, não é preciso ser atleta. Os organizadores param o trânsito durante os cruzamentos. Normalmente, o primeiro e o último do grupo se comunicam por rádio, para não deixar ninguém para trás. Um carro dá suporte aos participantes.

No Rio, além do passeio noturno da Kraft, existe o organizado pelo grupo Ciclistas do Rio, grupo formado há um ano por meio do site de relacionamentos Orkut. Os membros da comunidade homônima decidem pela Internet qual será o dia e o trajeto da próxima pedalada.

Os patinadores também têm seu lugar sob a lua. Há dois anos, a patinadora Érika Cordeiro organiza, com o apoio da prefeitura, um passeio mensal pelas ruas da cidade. Para participar é preciso saber patinar e frear com desenvoltura.

Passeios ciclísticos também acontecem durante o dia. Um deles, organizado pela Ciclotour, inclui informações históricas e passa por trajetos nada convencionais. Entre eles, as ladeiras de Santa Teresa, os mirantes do Alto da Boa Vista, um banho nas Paineiras e outras singularidades do Rio.

Copyright © 1995, 2000, Jornal do Brasil. É proibida a reprodução
total ou parcial do conteúdo do JB Online para fins comerciais

http://www.jb.com.br/jb/papel/cidade/2006/03/25/jorcid20060325002.html