|
|
Testemunha de uma guerra
Repórter do Jornal do Brasil vive drama dos moradores da Providência: enquanto o Exércio atirava, ficou presa na favela
[10/MAR/2006]
Depois de passar a tarde no Morro da Providência, em busca de depoimentos sobre a ocupação militar, vi de perto o drama de quem enfrenta, diariamente, o pesadelo da violência. Às sete da noite, os militares, empunhando fuzis, impuseram o toque de recolher. Antes que os moradores retardatários se trancassem em casa, começou o espetáculo de horror. Foram 30 minutos de tiros intermitentes. Pareciam intermináveis.
O barulho ensurdecedor dos estampidos se misturava aos gritos dos comandantes “Atenção! Recuar! Lado esquerdo! Lado Direito!”. Juntei-me ao grupo que estava no interior de uma padaria. Abriguei-me atrás do balcão e, agachada, fui até a parte de trás do estabelecimento, no espaço reservado ao forno.
Ali estavam dois homens que voltavam do trabalho e três mães, desesperadas, sem notícia dos filhos, sumidos no meio da escuridão imposta pela tropa (desde o início da ocupação, o Exército impede que o gerador de luz da praça seja ligado). Nervosa, a dona da padaria rezava e tentava ligar para o filho que trabalhava na Central do Brasil. Quando conseguiu discar o número, o barulho de nova saraivada de balas impediu que ela conseguisse fazer o apelo: pedir que o rapaz pegasse R$ 20 emprestados com o patrão para dormir em algum hotel barato da região. “Não volte para casa. Pelo amor de Deus. Começou tudo de novo”, dizia, entre lágrimas.
Busquei o rádio transmissor para passar à redação o que acontecia. O motorista da equipe , que teve de estacionar no meio da ladeira devido ao toque de recolher, estava na linha de tiro, e deveria sair o quanto antes do local. O fotógrafo ainda tentava alguns flashes, acuado no estabelecimento.
De repente, uma trégua. Depois de cinco longos minutos de disparos – os tiros de fuzil lembram bombardeios em seqüência – o início do silêncio incomodava. Éramos reféns do próprio Exército. O que aconteceria? Mais tiros? Os traficantes revidariam à afronta? Estaria tudo terminado?
Os militares deram a resposta: voltaram a atirar. Desta vez, o alto do morro respondeu, com tiros traçantes. Dentro da padaria, a nossa pequena ilha de segurança, ficamos desesperados: se os criminosos respondiam, a troca de tiros poderia durar horas. Para nossa surpresa, os tiros se tornaram raros e, aos poucos, sumiram.
A nova trégua foi dada pelos militares. Como a favela estava às escuras, a tropa resolveu cessar o ataque para acompanhar alguns moradores de volta para casa. Apesar do pânico – os tiros do alto do morro podiam recomeçar a qualquer momento –, decidi que aquela era a melhor hora para sair da padaria, cruzar a praça e descer a ladeira.
O comandante indicou a ladeira desocupada pelas tropas e, num impulso entre o suicida e o salvador, atravessamos, eu e o fotógrafo, a praça. Tropeçamos em uma granada, corremos e alcançamos a ladeira antes da nova leva de tiros, que começou quando entrávamos no carro. Infelizmente, tivemos de deixar para trás aqueles que continuaram reféns em suas próprias casas.
|
|
Copyright © 1995, 2000, Jornal do Brasil.
É proibida a reprodução
http://www.jb.com.br/jb/papel/cidade/2006/03/09/jorcid20060309001.html
|