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A velha Lapa está de volta
Casario reformado é inaugurado mas obras vão até 2006
Branca Nunes
A boemia da Lapa voltou a ter, pelo menos em uma pequena parte, o cenário que a abrigava no começo do século passado. Na noite de ontem, foram inaugurados dois casarões da Rua Mem de Sá, que começaram a ser restaurados em outubro do ano passado. O projeto contou com o patrocínio da Petrobras e foi realizado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), em parceria com a produtora Fazendo Arte, responsável pela restauração.
As comemorações da inauguração fizeram jus ao nome do local onde estão os casarões: Corredor das Artes. A partir das 19h, apresentações artísticas dos grupos Hombu, de Beto Coimbra e Silvia Aderne, Tá na Rua, de Amir Haddad, Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, além dos blocos afros e afoxés, encantaram ainda mais quem esperava ansiosamente pelo término das obras. Todos os grupos teatrais que se apresentaram na noite de ontem possuem suas sedes em outros casarões no mesmo Corredor e aguardam na fila pelas próximas restaurações. Até o momento, os beneficiados foram os números 37 e 39 que abrigam, respectivamente, a Federação de Blocos Afros e Afoxés do Estado do Rio (Febarj) e a Casa Brasil-Nigéria/Instituto Palmares. A recuperação dessa parte da cidade faz parte do projeto Distrito Cultural da Lapa, desenvolvido pela Secretaria de Estado de Cultura. Concebido ainda na década de 80, foi no ano 2000 que a área de atuação foi definida: ela abrange o trecho que vai do Largo da Lapa até o final da Rua do Lavradio. A restauração dos casarões foi a única obra realizada. A primeira etapa do projeto, prevista para ser concluída em 2006, incluirá as restaurações do lampadário do Largo da Lapa, do Museu da Imagem e do Som (MIS) e de outro casarão localizado na Mem de Sá. Esses projetos também contarão com o patrocínio da Petrobras. - Uma das nossas preocupações é não intervir na vida cultural do bairro - contou Marcos Monteiro, do Inepac: - A Lapa é charmosa pela sua desorganização e boemia e nós temos que dar o atendimento que ela merece sem modificar essas características. As pessoas que caminhavam pela Mem de Sá na tarde de ontem observavam encantadas aquelas pequenas jóias restauradas, mas lamentavam que a obra se restringisse a um espaço tão pequeno. Além de todas as casas do quarteirão precisarem de reformas, logo ao lado do número 39, um casarão queimado há décadas chega a atrair mais a atenção dos transeuntes do que as obras revitalizadas. - Só quero ver quem terá coragem de reformar o casarão da esquina - questionou a vendedora de móveis Cléo Celestino, 58 anos, 30 deles passados na Lapa. - Acho uma vergonha ter uma construção histórica desse jeito. Os casarões datam provavelmente da década de 10 - os historiadores não conseguiram encontrar em nenhum documento o período exato em que as edificações foram erguidas. Nessa época, estas casas eram a moradia de grandes comerciantes da cidade, que tinham as suas lojas no andar térreo. Décadas depois, os casarões abrigaram os melhores bordéis do Rio de Janeiro. Eram casas de meretrício cinco estrelas, que recebiam grandes figurões e foram palco das maiores festas da cidade.
[18/AGO/2005]
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