RIO -
Andando em cima de pernas-de-pau, brincando com bambolê ou simplesmente caminhando de mãos dadas. Foi assim que crianças e adolescentes atendidos por entidades de apoio à infância percorreram, na manhã de ontem, a Avenida Rio Branco, no Centro do Rio. Os manifestantes protestaram contra a decisão do governo estadual de cortar verbas do Fundo de Apoio à Infância e Adolescência (FIA). A avenida permaneceu interditada por cerca de duas horas.
Idealizado pela Associação Missionária de Apoio e Ressocialização (Amar), a passeata contou ainda com a colaboração de outras 23 instituições que trabalham em prol da infância e adolescência no estado do Rio - entre elas o Movimento Mães do Caju, de mulheres que tiveram seus filhos assassinados na chacina ocorrida em janeiro do ano passado.
- Se no Brasil não existe pena de morte, por que no Rio a polícia mata mais do que Aids, câncer e meningite juntos? - Através da mensagem ao secretário de Segurança Pública, Marcelo Itagiba, e à governadora, Rosinha Garotinho, Maria Inês da Silva, 44 anos, e outras mães esperam que os acusados pelo assassinato de seus filhos sejam presos.
Um ato em memória às vítimas da Chacina da Baixada emocionou quem acompanhava o protesto: 29 adolescentes carregavam pequenos caixões de cartolina com o nome de uma vítima do extermínio.
- Filhos foram assassinados nas mãos de um sistema injusto. A Baixada Fluminense está enxurrada de sangue - protestou Sebastião de Andrade, da Amar.
Ao som do Hino Nacional, centenas de crianças e adolescentes permaneceram de corpo ereto e mãos dadas, enquanto papéis brancos caíam sobre os manifestantes em sinal de solidariedade à causa.
- O direito dos pequenos não é um direito pequeno - concluiu Don José Francisco, bispo de Duque de Caxias e São João de Meriti.
Para o jovem Bruno dos Santos, que já esteve envolvido com o tráfico de drogas, a passeata é importante para que outros jovens possam ter a mesma chance que ele.
- Sou um vitorioso - disse o rapaz, de 18 anos, assistido pelo Espaço Progredir, que recebe apoio da Pastoral do Menor.
Já Alberto, de apenas 10 anos, é uma das crianças atendidas pela ONG Avicres, que possui seis creches e quatro abrigos em todo o estado, dos quais três teriam deixado de receber a assistência do FIA.
- Vim aqui para passear - disse, inocente, o menino.
Enquanto isso, o jovem Eronides Oliveira, de 22 anos, pertencente à ONG Associação dos Adolescentes e Jovens Trabalhadores do Estado do Rio de Janeiro, gritava ao microfone:
- Nossos jovens carecem de emprego e oportunidades. Vamos lutar para que tenham dignidade.
Para a coordenadora da Pastoral do Menor, Fátima Pereira da Silva, a manifestação representa a união das organizações que trabalham pelas crianças e adolescentes.
- Precisamos passar por cima das diferenças - concluiu
De acordo com o assessor especial de secretaria de governo, Ricardo Bittar, a governadora Rosinha está transferindo aos municípios as competências que lhes são atribuidas por lei, entre elas a manutenção de creches e abrigos.
- Estamos fazendo uma redução paulatina no repasse das verbas. Fatalmente chegará o momento em que o serviço será totalmente municipalizado, concluiu.
Ricardo Bittar e a presidente da FIA Maria Lúcia Camacho se reuniram hoje com algumas das organizações que participaram da caminhada, entre elas a Casa do Menor São Miguel Arcanjo e a Ong Avicres.