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Além do Fato: Grito de alerta


Jorge Darze

Presidente do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro

Nos últimos meses, os médicos têm denunciado as precárias condições de funcionamento dos hospitais públicos, incluindo os estaduais, revelando falhas na infraestrutura, falta de insumos básicos, medicamentos e manutenção precária dos equipamentos. Na Secretaria Estadual de Saúde, o que agrava a crise é a atual política de recursos humanos, que trilha o caminho à margem da lei, no terreno da ilegalidade, precarizando a relação de trabalho e cassando direitos.

Isso representa um grave retrocesso se compararmos as primeiras ações adotadas na área durante o governo Garotinho e capitaneadas pelo atual secretário. Na época, o governador, atendendo ao pleito da sociedade, encerrou um ciclo perverso no qual a gestão das unidades havia sido privatizada através da terceirização de cooperativas. Em seguida, foram convocados os concursados de 1995, e em 2001 novo concurso foi realizado. Nenhum dos concursos conseguiu suprir o déficit da rede, pois, além da evasão de muitos profissionais e da convocação insuficiente, o poder público continuou a se valer da mão-de-obra terceirizada sob várias roupagens, todas irregulares, na tentativa de completar o quadro. A atual política de recursos humanos, além de demonstrar a incapacidade para formular propostas que possam fixar o profissional à rede, viola a Constituição Federal, ameaça o Código de Ética Médica e compromete seriamente a qualidade dos serviços prestados à população. O importante resgate da dignidade profissional, o PCCS, aprovado por unanimidade na Assembléia Legislativa, foi inicialmente impedido por decisão judicial. Com a cassação da liminar, a lei voltou a vigorar, e mesmo assim o governo se nega a implantá-lo.

Diante da intransigência das autoridades, não nos restou outra alternativa a não ser recorrer ao Ministério Público do Trabalho, que ontem ajuizou ação civil pública visando à anulação da terceirização da mão-de-obra. É inadmissível pensar que não haja outra saída além das chamadas cooperativas, que têm inúmeros pareceres contrários dos órgãos fiscalizadores. A solução tem que ser o que a lei estabelece. É inadiável a convocação dos últimos concursados, um contrato emergencial com direitos trabalhistas assegurados para suprir o déficit e a imediata convocação de novo concurso público. A continuidade dessa fórmula irregular de contratação desrespeita diversas decisões dos Conselhos de Saúde, órgãos fiscalizadores do sistema, que o gestor é obrigado a cumprir, ficando evidente ainda o seu propósito clientelista e eleitoreiro. Os recentes acontecimentos, em que casos graves que chegam às emergências não são atendidos por falta de especialistas ou por outras razões da crise, demonstram que o quadro tende a se tornar mais grave se nada for feito. Não temos mais tempo a perder. O nosso grito de alerta tem por objetivo fazer valer o que a lei estabelece e o motivo maior é o respeito à vida dos nossos pacientes. Essa tarefa não é só dos médicos, mas principalmente das nossas autoridades que a tudo assistem e pouco fazem.


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[03/JUN/2005]


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