Centro, Zona Sul, Barra e Tijuca abrigam 87% dos teatros, cinemas e museus do Rio
A mesma cidade com vocação natural para capital cultural, que já lançou vanguardas artísticas para o mundo, tem a falha histórica de não conseguir dar acesso à cultura de maneira igual para seus moradores. Cinemas, bibliotecas, museus, centros culturais e teatros estão quase todos no Centro, Zona Sul, Tijuca e Barra: 86,9%, de acordo com levantamento do vereador Eliomar Coelho (PT), feito com dados do Instituto Pereira Passos (IPP) de 2003. A má distribuição dos aparelhos culturais do Rio coincide com o próprio fosso social entre os moradores da Zona Sul e os das zonas Norte e Oeste.
A professora universitária Verônica Brito, 23 anos, e a estudante de jornalismo Luana Monçores, 22, moram no bairro Jabour, que fica entre Bangu e Campo Grande, na Zona Oeste. Esta é uma região em que para ir aonde ficam os livros, as exposições da moda e os filmes fora do circuito norte-americano, os moradores têm de ter disposição. Na maioria das vezes, o tempo de ida e volta a um cinema na Zona Sul é maior que da projeção do filme ou da visita à exposição.
Convidadas pela equipe do JB para acompanhá-las na viagem de casa até o Estação Botafogo, as amigas só aceitaram porque o trânsito na Avenida Brasil no feriado de Corpus Christi era melhor. O objetivo era assistir ao documentário Mondovino, que só estava em cartaz naquele cinema.
– Com sorte chegaremos em uma hora até o cinema usando o ônibus e o metrô. Se fosse dia útil, o tempo seria o dobro – reclama Luana antes de pegar com Verônica uma das duas únicas linhas de ônibus que ligam o bairro ao Centro nos feriados e domingos. Cálculo errado: uma hora foi o tempo que levaram, quase todo trafegando pela Avenida Brasil, só para chegarem até a estação do metrô do Largo da Carioca. De lá, foram a Botafogo, onde ainda andaram cerca de 100 metros até o cinema. Só para chegar com 20 minutos de folga para a sessão das 17h20, as jovens levaram exatas uma hora e 40 minutos. Se contar o tempo da volta para casa, com as mesmas condições de trânsito, só de viagem gastaram com sobras mais que o tempo de projeção de Mondovino: duas horas e 15 minutos.
Como são estudantes – Verônica é mestranda – elas pagam meia entrada, R$ 8 para cada. É menos que os R$8,10 gastos com ida e volta para o transporte: R$ 3,60 do ônibus e R$ 4,50 do metrô.
– Durante a semana, o que há de melhor para ir ao Centro são as vans cooperativadas, mas o preço da passagem é R$ 4,50 – explica Luana.
As salas de cinema mais próximas de onde elas moram ficam no West Shopping, em Campo Grande, mas quase sempre as projeções são monopolizadas pelas fitas de Hollywood.
No levantamento feito pelo vereador Eliomar Coelho (PT), Centro, Tijuca, Zona Sul e Barra têm juntas 92 salas. Em todo o resto, onde moram cerca de 70% dos cariocas, existem 26 salas. Os dados organizados pelo vereador são de 2003 e não constam inaugurações recentes como as seis salas do Unibanco Arteplex, em Botafogo, e a Lona Cultural da Maré, casa de espetáculos inaugurada pela prefeitura na quarta-feira.
– As lonas culturais quebram um galho, têm boas apresentações, mas ainda é muito pouco – opina Luana.
A distribuição de museus, bibliotecas e centros culturais também é bastante desigual. Verônica, professora do curso de História da Uerj, no Maracanã, aproveita o tempo que tem depois das aulas para visitar as exposições e museus do Centro, a cerca de 20 minutos de ônibus do campus.
– Vou muito à biblioteca do CCBB, que tem um acervo muito rico. Mas se quero pesquisar com tempo, tenho que vir de casa aos domingos à tarde. Cultura é importante não só pelo lazer, mas para conhecer tendências, diminuir as diferenças e acompanhar a mudança do tempo – diz a professora, formada em economia.
No levantamento do vereador Eliomar, Centro, Zona Sul e Tijuca têm 64 bibliotecas, enquanto os outros bairros somam apenas 15. De acordo com Eliomar Coelho, essa desigualdade não se restringe ao Rio, é uma realidade nacional:
– Geralmente a menor fatia dos orçamentos fica com a cultura. O que não pode acontecer é a iniciativa privada cuidar da questão só com seus interesses imediatos de lucro – opina Coelho.
O vereador defende um marco regulatório para o dinheiro investido na cultura, para que a atividade se torne um meio de desenvolvimento econômico da cidade:
– As atividades culturais produzem cerca de 4% da riqueza do Rio. Não se investe mais na Zona Oeste, por exemplo, por que a cultura é um elemento de conscientização ideológica. O que se vê no Rio é um apartheid sócio-espacial – teoriza.
Enquanto inaugurava a lona cultural da Maré, o prefeito em exercício Otávio Leite rebateu as críticas de que há pouco investimento nas áreas onde os aparelhos culturais são mais escassos:
– Investimos nas zonas Norte e Oeste 70% de toda a verba da Secretaria de Culturas. O foco de inclusão social nos investimentos da secretaria é o que nos fará sediar em 2006 o Fórum Mundial de Cultura.