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Saúde na mira da Justiça

Ministério Público do Trabalho quer impedir que Secretaria Estadual transforme prestadores de serviço em cooperativados

Waleska Borges

Fotos de João Paulo Engelbrecht
Pacientes fazem fila no Hospital Pedro II, onde médicos e auxiliares de enfermagem protestaram contra o sistema de cooperativas

Pacientes fazem fila no Hospital Pedro II, onde médicos e auxiliares de enfermagem protestaram contra o sistema de cooperativas

O Ministério Público do Trabalho vai entrar na Justiça com uma ação civil pública para impedir a que a Secretaria Estadual de Saúde transforme 9.289 prestadores de serviços em cooperativados. Conforme denunciou ontem o JB, por falta de profissionais, que não aceitam a nova forma de contratação, desde quinta-feira o atendimento das oito principais emergências da rede estadual de saúde funciona de forma precária. A situação deve ficar ainda mais crítica neste fim de semana, quando os postos de saúde não abrem.

Diretor do Conselho Municipal de Saúde, Adelson Alípio alerta que 80% dos profissionais de plantão hoje e amanhã são cooperativados.

- Os profissionais estão revoltados. As pessoas que, depois de coagidas, se cooperativaram, receberam seus salários de abril quando ainda eram prestadores, com 20% de desconto. Muitos dos que não estão cooperativados sequer receberam pagamento - diz Alípio.

Por causa dos descontos e atrasos de seus salários, na manhã de ontem, cerca de 200 pessoas, entre elas médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem do Hospital Pedro II, em Santa Cruz, se recusavam a trabalhar. A unidade tem 667 cooperativados. Segundo o presidente da Associação dos Funcionários do hospital, Gilberto Custódio, os profissionais só voltaram ao trabalho após promessa de que o pagamento dos salários seria normalizado até o dia 30.

Ontem, a emergência do Pedro II funcionava com apenas três médicos, dois deles funcionários estatutários. O atendimento normal é feito por oito médicos. Uma das clínicas de plantão, Lúcia da Rocha, 51 anos, há dois meses sem receber, disse que se sentia humilhada.

- Não posso deixar de trabalhar. Se falto um dia, posso responder por omissão de socorro - lamenta a médica que iria passar 24 horas na unidade.

A auxiliar de enfermagem Rosilene Hemílio, 32, conta que, após entrar na cooperativa, recebeu R$ 362 dos R$ 418 de seu salário.

A revolta dos profissionais de saúde começou quando o Estado fez um convênio com a Fundação Escola de Serviço Público (Fesp) para reordenar os prestadores de serviço na rede. A Fesp contratou 17 cooperativas para absorver estes profissionais. Representantes da classe médica denunciam, no entanto, que a contratação das cooperativas ocorreu sem licitação. Os profissionais também não teriam direito a dividir o lucro e prejuízo das cooperativas.

Revoltados, os profissionais de saúde enviaram denúncias por escrito ao Ministério Público do Trabalho. O procurador do órgão, João Bertheir, recebeu ontem representantes de associações de funcionários dos hospitais estaduais, o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio (SinMed), Jorge Darze, e o deputado estadual Paulo Pinheiro (PT), presidente da Comissão de Saúde da Alerj. Após o encontro, segundo Paulo Pinheiro, o MP decidiu pedir, até quarta-feira, a suspensão do contrato entre a secretaria de Saúde e a Fesp.

- O MP também vai exigir que sejam chamados os 26 mil concursados que aguardam no banco de espera - informa o deputado, alertando que para algumas especialidades médicas deverá ser realizado novo concurso público.

Os prestadores de serviço esperam que a decisão da Justiça seja rápida. Enquanto isso, pacientes continuam sofrendo com a precariedade no atendimento. Ontem, no Hospital Rocha Faria, em Campo Grande, apenas dois médicos trabalhavam no pronto-atendimento. O setor atende diariamente cerca de 2 mil pessoas, mas por causa da falta de médicos pela manhã foram distribuídas 150 fichas para pediatria e outras 150 para adultos. À tarde, os médicos do pronto-atendimento foram transferidos para a emergência.

A dona-de-casa Mariza de Araújo, 26, era uma das dezenas de mães que chegaram às 6h ao Rocha Faria. Ela contou que a fila para o atendimento dobrava o quarteirão da unidade. Nos braços, ela tentava amenizar o sofrimento do filho Igor, de nove meses. O bebê estava vomitando e com febre.

- Os médicos tinham que atender as crianças no próprio colo das mães - contou Marize que às 12h45 ainda aguardava os resultados do exame do filho.

A subsecretária estadual de Saúde, Alcione Athaíde, reafirmou que prestadores foram contratados em caráter emergencial e temporário e que a rede está se adequando ao Sistema Único de Saúde.

- Se amanhã (hoje) houver falta de médicos, os diretores estão autorizados a fazer contratações emergenciais - diz Alcione.

Jorge Darze não concorda com a subsecretária.

- A opção do estado não pode ser o abandono destes profissionais. Muitas destas pessoas estão nos hospitais há quase 10 anos - critica.


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[28/MAI/2005]


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