Depois de tentar por um ano tratamento para falta de ar, o aposentado Luís Carlos Duarte Marques, 58 anos, resolveu procurar um pneumologista na Policlínica Piquet Carneiro, na Mangueira. Chegou às 5h, para disputar uma das 300 senhas distribuídas pela manhã, mas não resistiu à espera - era o último da fila. Às 5h30, passou mal, caiu no chão e morreu. Algumas pessoas tentaram socorrê-lo, mas quando a ambulância chegou, às 6h, ele já estava morto. O corpo foi retirado do local seis horas mais tarde. De acordo com o laudo do Instituto Médico Legal (IML), ele enfartou.
- Eu cheguei às 5h, vi quando ele caiu - disse Maria Silva de Melo, 53 anos.
O posto, que há dez anos é administrado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, só abre para atendimento às 7h. Para conseguir uma senha, o paciente tem que chegar de madrugada e enfrentar uma fila do lado de fora. Às 5h, vigilantes abrem os portões da unidade, para que os idosos possam esperar do lado de dentro. Às 6h, começa a distribuição de senhas.
A prima de Luís, Iara Machado, disse que o aposentado já tinha ido a dois postos.
- Há um ano ele tenta se tratar, e veio hoje procurar um especialista - comentou Iara.
A pneumologia, especialidade procurada pelo aposentado, não funciona no posto há seis anos. A chefe do corpo clínico, Lília de Moraes, informou que o posto realiza cerca de mil atendimentos por dia, entre consultas e exames.
- Parece um hospital, mas é um ambulatório - disse Lília.
O tenente-coronel bombeiro Roni Alberto Azevedo, relações públicas da corporação, informou que não houve demora no socorro prestado. De acordo com ele, o registro do pedido foi feito às 5h55, e às 6h a ambulância do quartel de Vila Isabel já tinha chegado.
- É inadmissível culpar um atraso que não existe, quando o problema está no sistema público de saúde.
Foi a terceira morte em filas de postos em dois meses, e a segunda em uma semana. Na segunda passada, Neuza Magalhães morreu na fila do posto Ernesto Zeferino Tibau Junior, em São Cristóvão.