Metais pesados poluem a Lagoa

Amostras de sedimentos apresentam altos índices de contaminação por substâncias poluentes derivadas do petróleo

Mariana Filgueiras

[19/ABR/2005]

Sacrificada pela poluição, mortandade de peixes e despejo de esgoto, a Lagoa Rodrigo de Freitas agora sofre com mais um problema ambiental: a contaminação por metais pesados e hidrocarbonetos, descoberta por especialistas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Foi constatada a presença de chumbo, cobre, zinco, níquel e hidrocarbonetos aromáticos polinucleares (HAPs) nos sedimentos da Lagoa em proporções quatro vezes superiores aos padrões aceitáveis internacionalmente.

O estudo, feito pelo Departamento de Oceanografia e Hidrologia da Uerj, teve o resultado confirmado por um exame solicitado pela Comissão de Defesa do Meio Ambiente da Assembléia Legislativa do Estado, a partir de amostras coletadas em março.

A origem da contaminação pode estar nos postos de gasolina que circundam a Lagoa, segundo os estudos realizados. Os hidrocarbonetos identificados nas amostras são derivados de petróleo e não são encontrados no meio ambiente. De acordo com o responsável pelo estudo concluído pela comissão, o engenheiro químico José Roberto de Souza Araújo, os tanques de armazenamento dos combustíveis, se não forem instalados corretamente, podem apresentar vazamentos que se infiltram no solo, poluindo os lençóis freáticos.

- Essas substâncias causam uma poluição invisível. Desta forma, não sabemos há quanto tempo a Lagoa está contaminada - informou José Roberto.

Dos cinco pontos da Lagoa em que foram retiradas as amostras de sedimentos, quatro continham as substâncias poluentes. O trecho mais contaminado é o da altura do Corte de Cantagalo, onde existem dois postos de gasolina, e perto da Fonte da Saudade, também com dois postos.

O local onde não foram encontradas substâncias químicas é o mesmo trecho onde foram realizadas dragagens recentemente pela Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema), nas proximidades do Clube Piraquê. Para o engenheiro químico José Roberto de Souza Araújo, este é um indício de que a melhor solução seria a remoção dos sedimentos através de dragagem.

- A renovação da água não é o bastante para solucionar o problema da poluição na Lagoa. É preciso que seja retirada parte desses sedimentos, já que eles não se degradam. A dragagem seria a melhor solução - acrescentou.

O estudo começou a ser elaborado a partir do trabalho de conclusão de curso apresentado em dezembro pelo estudante de Oceanografia Daniel Dias Loureiro. Entre maio e julho de 2003, ele recolheu amostras de sedimentos para análise em seis pontos da Lagoa.

Os resultados da contaminação chamaram a atenção da Comissão de Meio Ambiente da Alerj, que pediu novos exames, feitos desta vez num laboratório particular. O presidente da comissão, deputado estadual Carlos Minc (PV), alerta para a possibilidade de contaminação dos peixes e siris do local.

- Faremos, nos próximos dois meses, uma pesquisa nos animais para constatar a presença das substâncias. Além disso, vamos exigir dos postos de gasolina que façam uma dragagem na área para reduzir esse risco. Quem ajuda a contaminar também deve ajudar a despoluir - defendeu o deputado.

A presidente da Feema, Isaura Fraga, lembra que a taxa de sedimentação da Lagoa é de 0,7 cm por ano. Logo, a amostra retirada pelos técnicos da Uerj, de 7 cm, representa 10 anos de história da Lagoa.

- É uma análise muito importante historicamente, mas não é um dado de controle ambiental direto, pois não trabalhamos com o sedimento - contestou Isaura.

De acordo com a presidente da fundação, a presença de metais pesados não é novidade para a administração estadual. No entanto, todas as providências para combater esta poluição já teriam sido tomadas.

- Proibimos o lançamento de combustível, a realização de troca de óleo nos postos ao redor da Lagoa, intensificamos a fiscalização e fizemos a galeria de cintura, que diminui o lançamento de esgoto. Mesmo assim, a Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (Serla) está estudando a realização de novas dragagens no local - disse a presidente.

Copyright © 1995, 2000, Jornal do Brasil. É proibida a reprodução
total ou parcial do conteúdo do JB Online para fins comerciais

http://www.jb.com.br/jb/papel/cidade/2005/04/18/jorcid20050418004.html