Depois de ser flagrado com armas e drogas, na Favela Faz Quem Quer, em Rocha Miranda, Z., 15 anos, foi levado para o Instituto Padre Severino, na Ilha do Governador. Há 25 dias na instituição, que tem 226 adolescentes e capacidade para 160, ele participava, na tarde de ontem, com outros menores, de uma aula de artes. Sob os olhares do diretor da unidade, Petrer da Costa, o rapaz garantiu, em voz baixa, que era bem tratado: ''Ficar aqui é bom, a gente joga bola no campo''. Segundos depois, quando o diretor parecia não escutar a conversa, o adolescente confessou quando foi perguntado sobre seus sonhos ''Aqui não dá para sonhar''.
O adolescente, que cobria com purpurina uma árvore Natal feita de cartolina, contou que ''às vezes, eles chamam a gente para cá (sala de aula)''. Na mesma sala, outros adolescentes cortavam pedaços de papel. No quadro, a frase ''Salve o menino Jesus e ilumine todos nós'' lembrava um colégio já em ritmo de férias. A poucos metros da sala de aula, outros adolescentes jogavam bola. Vestidos com o uniforme - blusa branca, bermuda azul e chinelos de dedos - eles pareciam mesmo em férias.
- Eles têm futebol e aulas numa escola estadual dentro da unidade e comem a mesma comida do agente - diz o diretor, que acompanhou todos os instantes que a equipe do JB permaneceu na instituição.
A unidade passou por obras recentemente e estava limpa. Ainda era possível ver pingos de tinta no chão. Isolado, no alojamento dedicado aos jovens doentes, Y., 17 anos, parecia satisfeito com o lugar. Há 22 dias no centro de internação provisória, ele afirma que dorme em colchões confortáveis. Os dias, segundo o menor, são marcados na parede.
- Acordo, jogo bola e vou descansar. Quando cheguei aqui, escolhi ficar no alojamento do Comando (facção Comando Vermelho) - conta o rapaz, que foi flagrado numa moto roubada.
Apesar da aparente calma do centro, que tem até piscina, o diretor da unidade não permitiu a entrada da reportagem nos alojamentos ''por questão de segurança''.
Na unidade vizinha, Santos Dumont, as adolescentes pareciam satisfeitas. Por volta das 16h, elas estavam sentadas na quadra da unidade à espera de cursos profissionais. Na unidade, que tem capacidade para 36 menores, estão internadas 47 jovens.