Menino baleado em tiroteio no Morro dos Macacos diz que tem medo da polícia e conta como é viver na linha de fogo
Baleado no primeiro dia de guerra entre policiais e traficantes, no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, o menino Douglas Silva de Moura, 11 anos, que há um ano perdeu o pai executado em um assalto, tem mais medo da polícia do que de bandidos. A história da família é marcada por tiros. Há cinco anos, a irmã do menino foi ferida no morro durante uma ação policial. Ontem, um dia depois de ter sido baleado, Douglas viu-se obrigado a não sair de casa devido a outro tiroteio. Depois de uma trégua, o estudante conseguiu sair da favela, mas um novo confronto o impediu de entrar no morro.
Ainda com dificuldade para falar, ele conta que mal conseguiu dormir na última madrugada.
- O ferimento no rosto dói muito quando mexo a cabeça - contou, de bermuda e chinelos e vestindo uma camisa idêntica à do jogador Ronaldo, do clube espanhol Real Madrid.
Antes de encontrar a reportagem do Jornal do Brasil, Douglas tentou ir a um barbeiro. Não queria ser visto com o cabelo alourado por uma tinta que usou na semana passada, para ir a uma festa junina. Segundo a mãe de Douglas, Tereza Cristina da Silva, 33 anos, os meninos que moram na favela e usam cabelos tingidos não são bem vistos pelos policiais.
Ao lado da mãe, que acompanhava o filho no horário do almoço, Douglas nem parecia ter passado por tantos problemas por causa da violência. Montado na bicicleta, a mesma que levava para uma oficina quando foi baleado, ele demonstrou seriedade quando falou sobre seu pai, Cláudio Conceição de Moura, morto aos 31 anos. O feirante, que nasceu e se criou no Morro dos Macacos, foi assassinado em setembro do ano passado.
- Ele (o pai) era meu melhor amigo. Na hora, a gente quer se revoltar e até pensa em coisa que não deve - disse Douglas, quando se referia aos ladrões.
Depois da morte do pai, Douglas pensou em vingar-se dos bandidos. Segundo Tereza, os dois voltavam da feira quando o carro em que estavam foi cercado por ladrões. O menino ainda chegou a puxar a camisa de um dos assaltantes e pedir para que não matasse seu pai. O crime ocorreu em frente à casa da família, no Engenho da Rainha.
- Meu marido queria criar o Douglas fora do ambiente da favela. Por isso tínhamos mudado do Morro dos Macacos para o Engenho da Rainha há cinco meses, quando ocorreu o crime - conta Tereza.
Douglas costumava acordar todos os dias, ainda de madrugada, para ajudar o pai a comprar legumes, verduras e frutas na Ceasa. Tudo era vendido em barraquinhas no Engenho da Rainha e no Cachambi. Após ajudar o pai, Douglas ia para escola no acesso do morro. Depois das aulas, ele seguia para a feira desmontar as barracas.
- Por causa do trabalho, ele ficava com as roupas sujas e os amigos o apelidaram de Bob Esponja - entrega Tereza.
Com a morte do pai, a família voltou para a favela e Douglas dedicou-se ao futebol. Toda semana, ele treina na quadra do antigo zoológico pelo Projeto Xerox. Torcedor do Flamengo e fã do jogador de futebol Romário, o atacante Douglas sonha em ser um craque da bola. Se a profissão de jogador não der certo, ele quer ser ''montador de carro''. A escolha foi em homenagem ao pai, que já trabalhou como mecânico e sempre gostou de carros.
- Se um dia eu ganhar muito dinheiro, vou comprar uma casa fora da favela. Às vezes, sonho em ter meu pai de volta - entristece-se o menino.
Ontem, enquanto Douglas dava a entrevista, outro menino, de 13 anos, foi atingido por uma bala perdida na favela. Tranqüila, apesar das tragédias na sua família, Tereza diz que já se acostumou com a vida na favela.
- Muitas pessoas que estudaram comigo já morreram por se envolverem com coisas erradas - diz.
Descrente das autoridades, Tereza conta que não pretende processar o Estado pelo que aconteceu com o filho. E, até ontem, ela não tinha registrado o caso na delegacia do bairro.