Em dez meses, veículos dos Correios perderam 4 mil encomendas em 204 assaltos. Polícia investiga rota feita pelos produtos
Os produtos roubados dos veículos de entrega da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) estão sendo comercializados em camelôs e até no comércio formal. Os carros, caminhões e motos de distribuição - conforme noticiou ontem o
Jornal do Brasil - sofreram 204 assaltos, com perda de 4 mil encomendas, nos últimos dez meses. Para tentar rastrear as quadrilhas, a Polícia Federal (PF) montou um grupo de investigação que conta com a participação de funcionários da ECT e das empresas que mais têm produtos roubados.
- Estamos adotando um nível de investigação que não coloque em risco a vida dos funcionários dos correios. Buscamos informações para montar a cadeia de atuação dos criminosos: desde o receptador qualificado (quem vende nas ruas ou em lojas) até o assaltante - explicou o chefe da Delegacia de Repressão aos Crimes Fazendário (Delefaz), delegado Roberto D'Almeida Barbosa.
Segundo a secretária-geral do Sindicato dos Trabalhadores na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos do Rio de Janeiro (Sintect-RJ), Ana Zélia Almeida dos Santos, 40 anos, entre os produtos mais procurados pelos bandidos estão os distribuídos pela rede Natura.
- Os bandidos já abordam os veículos sabendo o que querem e buscam, principalmente, os produtos da Natura que têm boa saída no comércio informal - afirma Zélia.
O Núcleo de Repressão a Crimes Postais da Delefaz já identificou a preferência dos bandidos por produtos da rede. A Natura assinou, em agosto do ano passado, um contrato para que seus perfumes e cosméticos sejam distribuídos pela ECT. Procurada, a empresa não comentou o assunto.
- A Natura está cooperando com as investigações, nos mostrando formas de identificar, por intermédio de um controle próprio da empresa, o que ela produz e está sendo roubado. Mas precisamos da ajuda da população, por meio do Disque -Denúncia. Quem compra algo assim, pode estar participando da violência que os motoristas sofrem. Além disso, poderá ser enquadrado no crime de receptação - ameaça o delegado.
No entorno do camelódromo da Uruguaiana, no Centro, os vendedores se dividem entre as ruas Andradas, Senhor dos Passos, Uruguaiana e Buenos Aires, entre barracas e bancas montadas no chão. Apesar de possuir informações de que os produtos roubados estão chegando ao comércio formal, a PF não divulga nomes de possíveis lojas para ''não prejudicar a investigação''.
O Sintect-RJ afirma que os ataques aos carros da ECT já são computados como 60% dos acidentes de trabalho registrados na empresa que tem 400 motoristas. Os veículos saem para entregas de cinco pontos principais : os Centros de Encomendas Expressas - em Benfica, Niterói, Penha, Nova Iguaçu e Bangu -, todos cercados por favelas.
Na semana passada, três caminhões foram roubados. Em um dos casos, o motorista foi levado junto com o caminhão para dentro da Favela do Jacarezinho. L.S., de 53 anos, foi mantido refém enquanto a carga era saqueada por 15 homens armados.
- Pensei que tinha chegado a minha vez, tive medo e me senti como se já fosse uma pessoa morta - afirma L., que foi libertado pela PM depois de uma troca de tiros com os bandidos. O motorista ficou acuado, na cabine de seu caminhão.