Souza Aguiar cancela cirurgias de 90 pacientes

Só duas salas do centro cirúrgico funcionam, por falta de manutenção em aparelhos

Michel Alecrim

[10/JUN/2004]

Com o centro cirúrgico quase parado, o Hospital Souza Aguiar cancelou pelo menos 90 cirurgias desde segunda-feira. Das dez salas da unidade, apenas duas estão em funcionamento. Os médicos dizem que a causa do problema é a falta de manutenção nos equipamentos. A pedido deles, o Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj) realizou ontem uma vistoria no lugar, junto com o Ministério Público Estadual, o Sindicato dos Médicos e vereadores da Comissão arlamentar de Inquérito da Saúde, da Câmara Municipal. Enquanto a Secretaria Municipal de Saúde diz que as salas estão em plenas condições de uso, o prefeito Cesar Maia reconhece que o serviço de manutenção foi suspenso, mas será normalizado.

Há alguns meses, o centro cirúrgico do Souza Aguiar já vinha funcionando precariamente, com três salas abertas. Desde o último domingo, a equipe só viu condições de uso em duas. Uma delas, chamada de vermelha, fica reservada para casos extremos.

Ontem, 22 cirurgias eletivas e outras sete de emergência deixaram de ser realizadas por conta da crise. Segundo o relatório do Cremerj, havia problemas em equipamentos dos anestesistas e nos monitores de batimentos cardíacos. Foram encontrados cilindros de oxigênio enferrujados e piso danificado. A comissão também constatou a necessidade de mais 24 anestesistas e a falta de isolamento do centro cirúrgico, com risco de contaminação.

O presidente da Comissão de Ética do hospital, Valdir Issa, afirmou que os profissionais vivem constantemente o dilema da escolha de que paciente operar. Por conta disso, estão sujeitos a processos éticos, cíveis e até criminais.

O chefe da Unidade de Pacientes Graves, Marco Aurélio Lima, teme por um grande acidente na cidade, principalmente durante a passagem da tocha olímpica, no domingo..

- Não temos como operar vários acidentados de uma vez - alerta o médico.

Um dos pacientes que teve sua cirurgia cancelada foi o aposentado José Luiz Fernandes, 54 anos. Ele estava internado desde o dia 31 do mês passado com hiperplasia (crescimento exagerado) benígno da próstata, mas teve que voltar ontem para casa com uma sonda pendurada ao corpo.

- Os médicos me atenderam bem, mas falta material para a cirurgia. A sonda incomoda muito, principalmente quando me sento e corro o risco de inflamação - queixa-se o paciente.

O presidente do Sindicato dos Médicos, Jorge Darze, vê a situação como insustentável e entrou ontem com mandado de segurança na Justiça para que a prefeitura compre os equipamentos que estão faltando.

O presidente da CPI da Saúde, vereador Fernando Gusmão (PCdoB), diz que não faltam recursos para que o setor, que dispõe de R$ 1,6 bilhão no orçamento. Segundo ele, as pessoas que tiveram cirurgias canceladas devem procurar a Defensoria Pública para entrarem na Justiça.

A promotora Gláucia Santanta, que vistoriou a unidade com a colega Márcia Piatigorsky, pedirá uma audiência com o prefeito Cesar Maia e pode entrar com uma ação civil pública na Justiça, caso não haja acordo.

O secretário municipal de Saúde, Mauro Marzochi, disse que todas as salas estavam em perfeitas condições de uso. Segundo ele, as cirurgias só não foram realizadas porque os médicos estavam se recusando a trabalhar e a vistoria teria sido um ato político.

Já o prefeito Cesar Maia reconhece que houve uma suspensão de serviços de manutenção na saúde por causa de abuso de preços e formação de cartel por parte de algumas firmas. A interrupção, segundo ele, deve ser finalizada no máximo esta semana e a situação normalizada.

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