Com o centro cirúrgico quase parado, o Hospital Souza Aguiar cancelou pelo menos 90 cirurgias desde segunda-feira. Das dez salas da unidade, apenas duas estão em funcionamento. Os médicos dizem que a causa do problema é a falta de manutenção nos equipamentos. A pedido deles, o Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj) realizou ontem uma vistoria no lugar, junto com o Ministério Público Estadual, o Sindicato dos Médicos e vereadores da Comissão Parlamentar de Inquérito da Saúde, da Câmara Municipal. Enquanto a Secretaria Municipal de Saúde diz que as salas estão em plenas condições de uso, o prefeito Cesar Maia reconhece que o serviço de manutenção foi suspenso, mas será normalizado.
Há alguns meses, o centro cirúrgico do Souza Aguiar já vinha funcionando precariamente, com só três salas abertas. Desde o último domingo, a equipe só viu condições de uso em duas. Uma delas, chamada de vermelha, fica reservada para casos extremos.
Ontem, 22 cirurgias eletivas e outras sete de emergência deixaram de ser realizadas por conta da crise. Segundo o relatório do Cremerj, havia problemas em equipamentos dos anestesistas e nos monitores de batimentos cardíacos. Foram encontrados cilindros de oxigênio enferrujados e piso danificado. A comissão também constatou a necessidade de mais 24 anestesistas e a falta de isolamento do centro cirúrgico, com risco de contaminação.
Diante do problema, a juíza de plantão Regina Pires Duarte concedeu liminar ontem à noite ao Sindicato dos Médicos e determinou que a prefeitura coloque em funcionamento os aparelhos de anestesia dos centros cirúrgicos. Segundo o presidente do Sindicato dos Médicos, Jorge Darze, apenas um carrinho de anestesia - que monitora as condições do paciente - está hoje em funcionamento. Os outros foram canibalizados ao longo de 10 anos.
Presidente da Comissão de Ética do hospital, Valdir Issa afirmou que os profissionais vivem constantemente o dilema da escolha de que paciente operar. Por conta disso, estão sujeitos a processos éticos, cíveis e até criminais.
O chefe da Unidade de Pacientes Graves, Marco Aurélio Lima, teme por um grande acidente na cidade, principalmente durante a passagem da tocha olímpica, no domingo.
- Não temos como operar vários acidentados de uma vez - alerta o médico.
Um dos pacientes que teve sua cirurgia cancelada foi o aposentado José Luiz Fernandes, 54 anos. Ele estava internado desde o dia 31 do mês passado com hiperplasia (crescimento exagerado) benigna da próstata, mas teve que voltar ontem para casa com uma sonda pendurada ao corpo.
- Os médicos me atenderam bem, mas falta material para a cirurgia. A sonda incomoda muito, principalmente quando me sento e corro o risco de inflamação - queixa-se o paciente.
O presidente da CPI da Saúde, vereador Fernando Gusmão (PCdoB), diz que não faltam recursos para que o setor, que dispõe de R$ 1,6 bilhão no orçamento. Segundo ele, as pessoas com cirurgias canceladas devem procurar a Defensoria Pública para entrarem na Justiça.
A promotora Gláucia Santana, que vistoriou a unidade com a colega Márcia Piatigorsky, pedirá uma audiência com o prefeito Cesar Maia e pode entrar com uma ação civil pública na Justiça, caso não haja acordo.
O secretário municipal de Saúde, Mauro Marzochi, as cirurgias não foram realizadas porque os médicos se recusavam a trabalhar e a vistoria teria sido um ato político. Cesar Maia reconheceu que houve uma suspensão de serviços de manutenção na saúde por causa de abuso de preços e formação de cartel de algumas firmas. Segundo ele, a situação deve ser normalizada em uma semana.