Estação abre a temporada de montanhismo no Estado, com um mercado que cresce 20% ao ano
Mato, animais raros, canto de pássaros, riachos e trilhas - espalhados por pelo menos 109 roteiros - não fazem mais parte da lista só de andarilhos e bichos-grilo mas de pessoas atrás de ar puro, fresco e, principalmente, de qualidade de vida. Uma integração natural, na busca de novos amigos, suor, superação de limites e rumos em meio ao ambiente verde do Rio. Há quase duas semanas, começou a estação das folhas, que aqui não ficam secas. O outono, com dias claros e mais frescos, impulsiona a procura dos amantes do lazer, do esporte e do eco-turismo, pelas dezenas de trilhas e cerca de 40 altos picos do Estado. Está aberta a temporada de montanhismo.
Roteiros para todos os gostos, bolsos e níveis - para quem vem lutando para sair do sedentarismo e até para deficientes visuais - vêm se tornando parte da vida do carioca. Entre as febres do momento, estão o circuito pela copa das árvores, passando por obstáculos naturais - o arvorismo - e aulas de ioga no alto da Pedra da Gávea, em seus 842 metros de altitude. Caminhada, escalada, rapel, escalaminhada (uso de mãos e pés), arborismo e o mergulho em cachoeiras. Não é à toa que o mercado aumenta 20% a cada ano, de acordo com relatórios nacionais de turismo.
- O grande problema do Rio é o amadorismo. Subo a Pedra da Gávea e levo duas cordas. Uma para o meu cliente e outra para os desesperados que ficam presos na carrasqueira (trecho de pedra que exige escalada e equipamento de segurança). É um trabalho de equipe, onde é preciso pensar no outro - explica Luiz Cruz, empresário e guia de eco-turismo da empresa Trilhas do Rio.
- Como turista, fui com um instrutor à Pedra do Perigoso, na Barra de Guaratiba, sem equipamento de segurança. É rapel de 30 metros negativos sem apoio nos pés, com a distância da pedra. Só não o matei porque pensei que eu é que fosse morrer - lembra o bacharel em turismo e guia Márcio Macedo, 26.
Em 2001, a Federação de Esportes de Montanha do Estado do Rio de Janeiro (Femerj) percebeu a demanda crescente e começou a se organizar. Hoje, são 3 mil praticantes cadastrados. Este ano, deverão acontecer quatro etapas de concursos de escalada. As aulas são oferecidas pela Associação de Guias e Profissionais de Escalada do Estado (Aguiperj).
- Estamos homologando os cursos. Se seguir todas as normas de segurança, não tem erro. Inclusive com assaltos. Se você está numa caminhada para curtir o verde, para que levar tecnologia? - questiona Alexandre Diniz, diretor de competições da Femerj.
Para os aventureiros, um conselho dos guias: evitar fazer trilhas sozinho e não levar mais de dez pessoas. Grupos grandes demais afetam a rotina das espécies e deixam os aventureiros mais suscetíveis ao ataque de animais peçonhentos.
Territórios ricos em fauna e flora ainda sofrem com o lixo deixado por visitantes, a atuação de grupos de assaltantes e de caçadores. Sem fiscalização, muitas trilhas e cachoeiras, como a do Açude do Camorim, no Parque Estadual da Pedra Branca, em Curicica, viram banheiro e chuveiro públicos. Protegidos apenas por olhares atentos e mãos cuidadosas, os caminhos contam mesmo com guias e alguns moradores de comunidades vizinhas.
- Já devo ter plantado mais de 6 mil mudas, em um ano e meio de trabalho. Gosto de todas as plantas. Elas dão sombra e ar fresco. Tem lagartos e pássaros voltando. As pessoas têm que entender que tem cobra, mas não pode matar. A casa é delas - avisa José Carlos de Oliveira, 44.
Ele faz parte de um grupo de oito moradores da comunidade de Vila Canoas, em São Conrado. Eles recebem R$ 360 da prefeitura para trabalhar, das 8h às 17h, no reflorestamento do caminho da Pedra Bonita, em São Conrado.
No Parque Nacional da Tijuca - área de 3.300 hectares - o trabalho de 22 guardas e a sinalização nas matas reduziram quase a zero a quantidade de lixo nas trilhas e o número de pessoas perdidas. Um mapa com 102 pontos de atrações na Floresta da Tijuca foi lançado esta semana para auxiliar excursionistas.
- São famílias procurando programas na natureza. O novo projeto é uma trilha com facilidade de locomoção para deficientes visuais - adianta o diretor do parque, Celso Junius.
Pelos caminhos do Rio, trajetórias de superação fazem de passeios rotineiros histórias inesquecíveis para quem leva a vida entre as matas e sobre as montanhas.
- É interação pura. Tem gente que não consegue se relacionar e vem para falar com os outros. As pessoas estão abertas e querem, na verdade, realizar um sonho, um desejo. Tem um empresário que era tímido, fechado e sedentário. Na última parte da subida da Pedra da Gávea ele travou de medo. Tinha chegado ao limite. Achei que só ia tirá-lo dali com um helicóptero. Desci abraçado com ele, em pânico. Hoje, vai a vários roteiros e desce de rapel mais de 30 metros negativos - emociona-se Luiz Cruz.