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Hospital do Andaraí agoniza
Relatório denuncia uma série de irregularidades e más condições de higiene e saúde
Waleska Borges
[21/MAR/2004]
O Hospital do Andaraí precisa de terapia intensiva e urgente. Um relatório feito a partir de inspeção do Centro de Vigilância Sanitária da Secretaria Estadual de Saúde (CVS) descreve um quadro de filme de terror no hospital recentemente municipalizado. O relatório, inédito e obtido esta semana pelo Jornal do Brasil denuncia falta de higiene e de conservação e, principalmente, uma redução drástica no número de cirurgias: o número de operações caiu 75%.
Foram suspensas operações seletivas, entre elas, para pacientes com câncer, hérnias, vesículas e hemorróidas. De acordo com os médicos, metade do centro cirúrgico está fechado para reformas e há falta de aparelhos de anestesia. Com a redução das cirurgias, a lista de paciente ultrapassa duas mil pessoas.
Após receber as informações declaradas no relatório, a promotora Vera de Almeida, do Ministério Público Estadual, pediu à 9ª Vara de Fazenda Pública uma inspeção judicial no hospital. O pedido da vistoria deve ser aprovado no início desta semana.
Segundo a promotora, representantes do Cremerj, Ministério Público e da procuradoria do município vão participar da inspeção, que pode resultar em uma ação civil pública para a realização de obras no hospital.
– A medida cautelar de produção antecipada de prova é de caráter urgente. O objetivo é verificar a precariedade dos materiais e do atendimento – adiantou a promotora Vera de Almeida.
Desde outubro, segundo denunciam os médicos residentes do serviço de Cirurgia Geral, o hospital vem adiando diversas operações aguardadas por pacientes em estado delicado. Alguns pacientes que esperam por cirurgias de hérnia ou vesícula já estão há três anos na fila.
– Um paciente com câncer que chega ao ambulatório hoje só terá vaga para operar em 90 dias. Ele me pergunta se vai morrer esperando. Não sei o que responder. Me sinto de mãos atadas – desabafou um residente.
A lista de irregularidades denunciadas pelo relatório é extensa e assustadora. Na época da vistoria, o Serviço de Pronto Atendimento (SPA) estava com lotação acima da capacidade, com vários pacientes, atendidos em cadeiras. Durante a inspeção, o carrinho de parada da sala de trauma estava incompleto. O posto de enfermagem tinha medicação fora do prazo de validade.
No centro cirúrgico geral, havia uma paciente com fratura de clavícula, queixando-se de dor intensa, sem assistência. Os pisos e paredes do setor necessitam de reparos. Os aparelhos de ar condicionado apresentavam péssimas condições e alguns não tinham filtros.
Os elevadores do hospital apresentam frequentes defeitos. Segundo um médico plantonista, um maqueiro transportando um paciente em pós-operatório de neurocirurgia caiu no fosso por um nível. O absurdo: o paciente ficou pendurado na maca.
Um ofício da direção do hospital de outubro passado, por exemplo, relata que a unidade passou a ter dificuldades de equipamentos. Cirurgias seletivas chegaram ao ponto de serem suspensas por falta de fios.
– A política implantada no hospital afeta tanto a população quanto os profissionais, que estão ficando doentes. Não sei até quando vamos aguentar – alertou o cirurgião do centro de tratamento de queimados, Roberto Portez.
A inspeção sobre a situação do hospital está no ofício 0940/2003, de 23 de setembro, da Secretaria Estadual de Saúde. No parecer final foi constatado que “Trata-se de um estabelecimento assistencial de saúde que não funciona em adequadas condições de higiene e conservação”. Segundo o Estado, o documento foi enviado à Secretaria Municipal de Saúde exigindo providências. O município informou, entretanto, que desconhece o relatório e que não recebeu denúncias sobre a situação do hospital. A secretaria informou ainda, na sexta-feira, que as obras do centro cirúrgico serão retomadas amanhã.
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