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Giovanni Quaglia: ''Maré é zona livre do tráfico''


Marco Antônio Martins

BG Press
Giovanni Quaglia

Giovanni Quaglia: 'O país tem que se modernizar para recuperar os dólares enviados ao exterior. O crime de lavagem de dinheiro opera no campo da corrupção'

No dia 7 de outubro, o italiano Giovanni Quaglia se surpreendeu ao chegar à sede do batalhão da Maré, em Bonsucesso, subúrbio do Rio. Numa conversa com os policiais militares, ele soube que a unidade fecha as portas após às 19h. Localizado no interior de umas das favelas apontadas pela polícia carioca como uma das mais violentas do Estado e às margens da Linha Vermelha, principal via de acesso entre o Centro da cidade e o aeroporto internacional, o batalhão foi inaugurado há três meses como a solução para os problemas de violência na região. Para o representante da Organização das Nações Unidas (ONU) para as drogas e o crime no Brasil e nos países do Cone Sul essa prática só dificulta o combate à criminalidade.

- A favela é um território livre para o tráfico de drogas. Os soldados têm que ficar na unidade para não se tornarem alvos fáceis para os traficantes da favela - , afirma o italiano nascido há 52 anos, em Turim, cidade de 1 milhão de habitantes ao norte da Itália. Segundo Giovanni Quaglia, o país precisa acabar com a burocracia se quiser recuperar os dólares enviados para o exterior, descobertos nos escândalos financeiros que vieram a público este ano, como o caso dos fiscais e auditores da Receita, no Rio, e do Banestado.

- O convênio com escritórios particulares de advocacia agilizaria todo o processo - diz. Em sua segunda passagem pelo país, ocupou o mesmo cargo entre 1992 e 1996, Quaglia defende que os projetos na área de segurança pública saiam do papel. De acordo com ele, os planos elaborados no Brasil estão entre os melhores do mundo, mas falta investimentos para torná-los efetivos.

- Não há como combater o crime sem a qualificação da Polícia Federal. E para piorar, no próximo ano, ela terá seu orçamento reduzido em 7%. O país deve ver a qualificação policial como um investimento e não como um fundo perdido - disse Quaglia, que falou, por telefone, ao Jornal do Brasil.

Projetos de prevenção

No Rio, o tráfico é urbano e de segunda categoria por estar situado basicamente nas favelas. A Prefeitura tem um trabalho muito bom que é o Favela Bairro. Mas, isso não é suficiente. É preciso se investir mais em educação, saúde, em serviços profissionalizantes. A nossa idéia, com esse acordo com o município, é fortalecer a presença do Estado, através das diversas secretarias. Caso contrário fica muito difícil. O setor público tem uma presença muito limitada e com baixo nível de organização nas comunidades carentes. Isso dificulta a integração com os moradores. Não basta apenas a presença da polícia.

Batalhão da Maré

É preciso mudar essa situação. Na visita à Maré, os policiais me contaram que, após às 19h, eles fecham as portas do batalhão e ficam lá dentro. Segundo eles, à noite fica mais fácil para matar os soldados que fazem ronda na comunidade. Quer dizer, vira um território livre para o tráfico de drogas. Ainda que seja complicado, alguma coisa precisa ser feita. Há projetos que deram certo em Diadema (SP) e Belo Horizonte (MG).

Estado presente

Quando a presença do Estado é pequena, como neste caso, apenas com policiais, são criadas uma série de disputas com traficantes. Essa presença precisa ser ampliada. Com trabalho, justiça. O Estado precisa se conscientizar que é importante dar emprego para os moradores dessas áreas. Junto com isso devemos tratar dos dependentes químicos. As pessoas têm a visão de que só quem está fora das favelas é que precisa receber cuidados. Mas, lá existem muitos jovens à espera de tratamento. Nas favelas, apenas 5% dos moradores estão envolvidos com o tráfico de drogas. A grande maioria das pessoas são trabalhadores honestos. Precisamos fortalecer esses 95% que nada têm a ver com o tráfico. Acho que dá para melhorar a vida deles.

Crimes

O Brasil se caracteriza por uma série de crimes praticados por jovens utilizando armas de fogo. É uma situação parecida com a Colômbia. Já Uruguai, Argentina e Chile não atingem esses níveis de violência. O tráfico de drogas não é menor. O consumo de drogas é bem parecido com o Brasil, que tem patamares bem abaixo da Europa ou Estados Unidos. As redes de tráfico existem, mas a diferença é que no Brasil, as gangues que distribuem cocaína ou armas são mais violentas do que nos países vizinhos.

A solução

Os governos estaduais e federal precisam se convencer que para melhorar a situação é preciso investir na área de prevenção ao crime. O Brasil tem os melhores planos do mundo na área de segurança pública. São muito bons. Mas, a questão está na execução do plano. Eles sempre ficam no papel. Colocá-los em prática é a questão a ser resolvida. Infelizmente, não se coloca dinheiro, onde se diz que é prioridade nacional. E sem investimento não há solução. O crime e o tráfico de drogas são considerados questões estratégicas para a ONU em termos de segurança nacional.

Polícia Federal

Para 2004 existe a previsão de corte no orçamento da Polícia Federal da ordem de 7%. Como disse, há discurso do outro lado que não é acompanhado, que não permite a organização para que se faça um trabalho eficiente. Os governantes precisam se conscientizar de que a PF é a única polícia capaz de fazer esse trabalho de repressão ao tráfico internacional. Por isso, os ministros da área econômica precisam liberar a verba para que esse preparo seja levado à frente. Essa repressão tem que ser qualificada. Se não conseguimos reduzir a quantidade de drogas, a situação fica complicada. Só quando tratamos de combater o crime é que observamos que o preparo da polícia é importante.

Prioridades

Trabalhamos tanto com as drogas lícitas como ilícitas. E na maior parte do mundo, e no Brasil, não diferente, temos muito problema com o álcool. Ele é usado, pela maioria dos dependentes, junto com a cocaína. Precisamos investir na educação. Criar valores nas famílias e mostrar os males do vício. Isso não é simples.

Direitos Humanos

É lamentável o que está acontecendo após a visita da Asma Jahangir. Duas testemunhas de crimes foram mortas comprovando que o problema é sério. Grupos de criminosos, que, simplesmente, matam. Essa prática não é uma característica exclusivamente brasileira, mas é uma confirmação que essa prática se disseminou. Essas mortes impedem que a Justiça seja rápida, dificultando assim a conclusão do caso. A queima de arquivo tem sido muito utilizada em crimes envolvendo a corrupção.

Recuperar os dólares

O país precisa se modernizar nesta área. Os crimes do colarinho branco, da lavagem do dinheiro, que operam no campo da corrupção se sofisticaram muito e têm causado grande preocupação a nível mundial. Infelizmente, esse trabalho vem sendo tratado, formalmente, no âmbito da burocracia governamental. O combate é lento, fica restrito a gabinetes, e não se recupera dinheiro algum. Um investimento nesta área é necessário.

Convênios

Através de acordos com escritórios de advocacia particular e até com a cooperação do nosso escritório aqui em Brasília. Nós gostaríamos de trabalhar muito neste sentido apoiando o governo com técnicas modernas que deram certo em outros países. A Itália conseguiu recuperar bilhões em paraísos fiscais. O crime de colarinho branco tem que ser visto como investimento e não como fundo perdido. Por enquanto, o governo não vê assim. E agindo dessa forma dificilmente se consegue recuperar algum dinheiro. A presença de escritórios particulares poderiam agilizar esse processo.

Investimentos

Há escritórios de advocacia particulares altamente especializados. Agora, para ter os seus serviços tem que haver recursos. Investir bastante e contar com pessoas especializadas. Não se obtém resultados se não se gasta dinheiro. O governo ainda não tem essa mentalidade.

Drogas sintéticas

Nossa preocupação é grande. Precisamos de um bom programa de prevenção às drogas sintéticas que são muito perigosas. Temos estudos que mostram os prejuízos já causados em países da Europa e da Ásia, além dos Estados Unidos e, especificamente, Japão. No Brasil, este é o momento para trabalharmos na chamada prevenção primária, já que ainda não existe um grande número de viciados em ecstasy ou anabolizantes. Isso se faz agora. Se deixarmos para mais tarde só restará trabalhar num nível mais avançado, que é o tratamento. Aí, como todos sabem, fica mais difícil.

Ameaças

Já recebi algumas. Nós trabalhamos com um tema complicado e que requer cuidados. Tive maiores problemas quando atuei em representações localizadas em países produtores de drogas. Estive algum tempo no escritório do Afeganistão e do Paquistão, países reconhecidos pela produção de ópio. Houve algumas ameaças diretas e outras indiretas. Mas, deu tudo certo. Agora, retornei ao Brasil. Acho que conheço um pouco a situação das drogas e do crime nesta parte do mundo. Evito falar de assuntos pessoais e tomo meus cuidados.

Sérgio Vieira de Melo

Conheci o Sérgio durante uma visita oficial dele no Afeganistão, em 1996. Foi uma grande perda para a família e para a organização. Mas, o caso dele teve repercussão devido o cargo que ele ocupava. Na verdade, as mortes e os atentados são fatos freqüentes em nosso trabalho nas Nações Unidas. Principalmente, para os funcionários baseados na Ásia, América Latina ou África. Trabalhamos em temas complicados e estamos sujeito a isso.


[20/OUT/2003]


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