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Rio marcha debaixo de chuva

Cerca de 40 mil pessoas participaram de ato, em Copacabana, pela aprovação da lei do desarmamento

Florença Mazza

André Lobo

Apesar do mau tempo, cerca de 40 mil pessoas participaram da passeata, em Copacabana

Cerca de 40 mil pessoas, segundo a PM, entre vítimas da violência, políticos, artistas e integrantes de várias tribos divididas em 23 alas, se uniram a partir das 11h30 de ontem por um objetivo comum: o desarmamento. Na orla de Copacabana, durante duas horas, eles caminharam sob chuva, do Posto 5 à Praça do Lido, para pressionar o Congresso Nacional a acelerar a votação do Estatuto do Desarmamento. O presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha (PT-SP), que esteve na manifestação assim como integrantes dos governos federal e estadual, afirmou que o estatuto deverá ser apreciado no dia 23 ou 30.

- A mobilização popular é superior ao lobby. O Congresso terá de se dobrar à vontade do povo - disse o secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares.

O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, acredita que a passeata simboliza o anseio de toda a sociedade civil:

- Brasil seguro só com o estatuto vigorando. Mas sua promulgação não vai nos levar ao paraíso. É preciso implantá-lo e criar um cadastro concreto para ser possível a fiscalização.

O diretor-executivo do Viva Rio, Rubem Cezar Fernandes, surpreendeu-se com a adesão à passeata - apesar de a expectativa dos organizadores ter sido de 100 mil participantes.

- Tem gente demais mesmo com essa chuva toda. A maioria dos que vieram sofre a violência na pele - disse.

É o caso dos pais de Gabriela Prado Ribeiro, morta no metrô do Rio por uma bala perdida no início do ano. Sua mãe, Cleide, acredita que a divulgação do movimento na novela Mulheres Apaixonadas, da Rede Globo, colaborou. Seu marido, Carlos, tinha a expectativa de colher 1 milhão de assinaturas para enviar ao Congresso.

- Esse movimento mostra que a sociedade é consciente. Antes da passeata estávamos com 400 mil assinaturas, hoje o número subiu muito - disse.

Alas de chineses - em protesto contra a morte de um comerciante no Rio -, funkeiros, capoeiristas, homossexuais e do elenco da novela - cercado por seguranças - dividiram espaço com a ala das autoridades, que tinha ministros, deputados e empresários.

Na ausência de Rosinha, acamada, os representantes do governo do Estado formaram uma ala à parte. Nela estavam o secretário e o subsecretário de Segurança, Anthony Garotinho e Marcelo Itagiba, o corregedor-geral das polícias, João Luiz Pinaud, e o secretário de Justiça e Direitos do Cidadão, Sérgio Zveiter. Clarissa, filha de Garotinho, também participou.

Ao a presença anunciada, o secretário de Segurança foi vaiado. Pouco depois, Garotinho disse não ter ouvido o protesto e aproveitou para criticar o Estatuto do Desarmamento:

- Ele está aquém das expectativas. Deixar o plebiscito (sobre a proibição da venda de armas) para 2005 é uma afronta à inteligência das pessoas.

Após a passeata, a cúpula do PT foi para o bar Flor do Lido, beber cerveja, com exceção do ministro Justiça, que foi almoçar com a neta.

O relatório do estatuto prevê que só pessoas a partir de 25 anos, com necessidade e habilidade técnica e psicológica comprovadas, poderão comprar armas. A posse ilegal será punida com até três anos de prisão e, no caso de armas de uso restrito, será crime é inafiançável e dá seis anos de cadeia. O texto proíbe a fabricação e venda de armas de brinquedo, que também será crime.

Esta semana, o estatuto será apreciado pela Comissão de Segurança Pública da Câmara e, a seguir, será votada na Comissão de Constituição e Justiça para depois ir a plenário. (Com Carolina Pinho)

Depoimentos

"Isto é um grito pela paz. Não é papel do cidadão enfrentar criminosos, mas sim do Estado, que está se organizando para isso" - Nilmário Miranda, Secretário Nacional dos Direitos Humanos (PT)

"As pessoas que estão aqui representam os milhões de brasileiros que querem um país seguro" - Márcio Thomaz Bastos, Ministro da Justiça

"A passeata é importante para pressionar o Congresso. O projeto não vai acabar com a violência, mas é um começo. Se o Brasil não acabar com a arma, a arma vai acabar com o Brasil" - Luís Eduardo Greenhalg, Relator do estatuto

"O melhor seria que fosse proibida a venda de armas no Brasil, mas tem que haver coragem para isso" - Luiz Paulo Conde, Vice-governador do Rio

"É surpreendente a crença e a disposição que o nosso povo tem para recomeçar. A maioria dos que vieram já sofreu a violência na pele" - Rubem Cezar Fernandes, Diretor do Viva Rio


[15/SET/2003]


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