Cerca de 40 mil pessoas participaram de ato, em Copacabana, pela aprovação da lei do desarmamento
Cerca de 40 mil pessoas, segundo a PM, entre vítimas da violência, políticos, artistas e integrantes de várias tribos divididas em 23 alas, se uniram a partir das 11h30 de ontem por um objetivo comum: o desarmamento. Na orla de Copacabana, durante duas horas, eles caminharam sob chuva, do Posto 5 à Praça do Lido, para pressionar o Congresso Nacional a acelerar a votação do Estatuto do Desarmamento. O presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha (PT-SP), que esteve na manifestação assim como integrantes dos governos federal e estadual, afirmou que o estatuto deverá ser apreciado no dia 23 ou 30.
- A mobilização popular é superior ao lobby. O Congresso terá de se dobrar à vontade do povo - disse o secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares.
O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, acredita que a passeata simboliza o anseio de toda a sociedade civil:
- Brasil seguro só com o estatuto vigorando. Mas sua promulgação não vai nos levar ao paraíso. É preciso implantá-lo e criar um cadastro concreto para ser possível a fiscalização.
O diretor-executivo do Viva Rio, Rubem Cezar Fernandes, surpreendeu-se com a adesão à passeata - apesar de a expectativa dos organizadores ter sido de 100 mil participantes.
- Tem gente demais mesmo com essa chuva toda. A maioria dos que vieram sofre a violência na pele - disse.
É o caso dos pais de Gabriela Prado Ribeiro, morta no metrô do Rio por uma bala perdida no início do ano. Sua mãe, Cleide, acredita que a divulgação do movimento na novela Mulheres Apaixonadas, da Rede Globo, colaborou. Seu marido, Carlos, tinha a expectativa de colher 1 milhão de assinaturas para enviar ao Congresso.
- Esse movimento mostra que a sociedade é consciente. Antes da passeata estávamos com 400 mil assinaturas, hoje o número subiu muito - disse.
Alas de chineses - em protesto contra a morte de um comerciante no Rio -, funkeiros, capoeiristas, homossexuais e do elenco da novela - cercado por seguranças - dividiram espaço com a ala das autoridades, que tinha ministros, deputados e empresários.
Na ausência de Rosinha, acamada, os representantes do governo do Estado formaram uma ala à parte. Nela estavam o secretário e o subsecretário de Segurança, Anthony Garotinho e Marcelo Itagiba, o corregedor-geral das polícias, João Luiz Pinaud, e o secretário de Justiça e Direitos do Cidadão, Sérgio Zveiter. Clarissa, filha de Garotinho, também participou.
Ao a presença anunciada, o secretário de Segurança foi vaiado. Pouco depois, Garotinho disse não ter ouvido o protesto e aproveitou para criticar o Estatuto do Desarmamento:
- Ele está aquém das expectativas. Deixar o plebiscito (sobre a proibição da venda de armas) para 2005 é uma afronta à inteligência das pessoas.
Após a passeata, a cúpula do PT foi para o bar Flor do Lido, beber cerveja, com exceção do ministro Justiça, que foi almoçar com a neta.
O relatório do estatuto prevê que só pessoas a partir de 25 anos, com necessidade e habilidade técnica e psicológica comprovadas, poderão comprar armas. A posse ilegal será punida com até três anos de prisão e, no caso de armas de uso restrito, será crime é inafiançável e dá seis anos de cadeia. O texto proíbe a fabricação e venda de armas de brinquedo, que também será crime.
Esta semana, o estatuto será apreciado pela Comissão de Segurança Pública da Câmara e, a seguir, será votada na Comissão de Constituição e Justiça para depois ir a plenário. (Com Carolina Pinho)
Depoimentos
"Isto é um grito pela paz. Não é papel do cidadão enfrentar criminosos, mas sim do Estado, que está se organizando para isso" - Nilmário Miranda, Secretário Nacional dos Direitos Humanos (PT)
"As pessoas que estão aqui representam os milhões de brasileiros que querem um país seguro" - Márcio Thomaz Bastos, Ministro da Justiça
"A passeata é importante para pressionar o Congresso. O projeto não vai acabar com a violência, mas é um começo. Se o Brasil não acabar com a arma, a arma vai acabar com o Brasil" - Luís Eduardo Greenhalg, Relator do estatuto
"O melhor seria que fosse proibida a venda de armas no Brasil, mas tem que haver coragem para isso" - Luiz Paulo Conde, Vice-governador do Rio
"É surpreendente a crença e a disposição que o nosso povo tem para recomeçar. A maioria dos que vieram já sofreu a violência na pele" - Rubem Cezar Fernandes,
Diretor do Viva Rio