''Não tenho conta na Suíça''

Ex-subsecretário abre sigilo bancário. Garotinho diz que fiscais devem ser tratados como bandidos

João Paulo Engelbrecht
Garotinho

Garotinho garantiu nunca ter tido contato com os fiscais suspeitos do desvio de US$ 32 milhões para a Suíça

Ao falar pela primeira vez sobre a descoberta de uma conta milionária na Suíça em nome de fiscais do governo estadual, o ex-governador Anthony Garotinho foi enfático ao garantir que não partiu dele a indicação de nenhum dos servidores envolvidos no caso e que não conhecia Rodrigo Silveirinha, apontado como responsável pelo envio de US$ 8,9 milhões para a Suíça.

- Ele era sub do sub. Essas pessoas têm que ser tratadas como bandidos. Nem as conhecia. Vim de Campos e nem sabia quem eram - desabafou o ex-governador, na Assembléia Legislativa.

À noite, Rodrigo Silveirinha também alegou inocência e negou possuir qualquer conta na Suíça.

- O meu patrimônio é fruto de meu trabalho e o de minha mulher, em 20 anos - disse, durante a entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo.

O ex-subsecretário-adjunto de Administração Tributária afirmou que, por ele, está quebrado e à disposição da Justiça o sigilo bancário, telefônico, fiscal e patrimonial, seu e de sua família.

O que, para a Justiça, pode ser uma medida inócua. De acordo com uma nota oficial, divulgada na tarde de ontem pelo Ministério Público Federal, no Rio, a procuradora da República Marylucy Santiago Barra acredita que o vazamento das informações sobre o processo, que investiga integrantes da administração pública do Rio, possa ter antecipado o desvio do dinheiro para um paraíso fiscal. Para ela, os US$ 32 milhões depositados em contas na Suíça talvez nunca retornem ao Brasil.

A investigação sobre quatro funcionários da Fazenda Estadual, entre eles, Rodrigo Silveirinha, e quatro auditores da Receita teve início em 29 de agosto do ano passado. Na ocasião, houve um pedido do colaboração mútua entregue ao procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro.

Inicialmente, os procuradores Arthur Gueiros e Bruno Accioly foram designados para o caso que propunha o seqüestro de valores depositados na Suíça. Em 2 de dezembro, o juiz Lafredo Lisboa, da 3ª Vara Criminal Federal, rejeitou o pedido por falta de provas. Hoje, o juiz volta a apreciar.

Enquanto isso, o MP estadual pode reabrir o inquérito que apurou, em 1999, denúncias de diretores da Light sobre tentativas de extorsão praticadas por fiscais da Inspetoria de Contribuintes de Grande Porte, subordinada à Secretaria Estadual de Fazenda. Como dois dos fiscais envolvidos no caso também fazem parte do esquema do envio de US$ 32 milhões à Suíça, a Promotoria de Defesa dos Interesses Difusos e Cidadania do MP, que já investiga o caso, também quer saber se há relação entre os dois episódios.

Os promotores já pediram o levantamento do patrimônio dos fiscais envolvidos no esquema de remessa ilegal de dólares . Dois deles, Carlos Eduardo Pereira Ramos e Rômulo Gonçalves, foram investigados no caso da Light. Na época - a mesma do envio de dólares a um banco suíço - o MP não fez o levantamento de bens de Carlos Eduardo e Rômulo, que atuavam na Inspetoria de Contribuintes de Grande Porte, criada na gestão do ex-governador Garotinho.

Para o MP, o fato de os fiscais não comprovarem renda compatível com os bens que possuem caracteriza improbidade administrativa. A Promotoria pediu a cópia do inquérito da Light e das fitas de vídeo e de gravações telefônicas que teriam as supostas tentativas de extorsão.

O subprocurador-geral de Justiça, Elio Fischberg, explicou, ontem, que o inquérito da Light acabou arquivado por falta de provas. Segundo Fischberg, como nada ficou provado, não havia necessidade de se levantar o patrimônio dos fiscais envolvidos nem da quebra de seus os sigilos bancário e telefônicos.

- Poderia ficar caracterizado um abuso de poder - justificou o subprocurador.

Desde ontem, por determinação do governo o Disque-Denúncia (2253.1177) está recebendo informações sobre a atuação de fiscais corruptos.

[14/JAN/2003]

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