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Solidariedade à flor da pele


Juliana Valentim

A Sociedade Brasileira de Dermatologia do Rio de Janeiro (SBDRJ) criou uma verdadeira força-tarefa no combate à desinformação e à falta de políticas públicas na saúde. Suas armas serão a boa vontade e a solidariedade de uma equipe de 60 dermatologistas voluntários, que farão um mutirão neste sábado para atender gratuitamente cerca de 1.500 pessoas de comunidades carentes das cidade no lançamento da campanha ''Dermatologista Solidário''. O presidente da SBDRJ, Omar Lupi, afirma que o projeto pioneiro pretende levar informação e tratamento para quem não tem condições de pagar por isso. ''Queremos resgatar a função social dos médicos: diminuir o sofrimento e ajudar o próximo'', ressalta.

  • Como surgiu a iniciativa da campanha?

    Queremos mostrar para a população o que realmente faz o médico dermatologista, que cuida dos problemas da pele, do cabelo e das unhas. Na verdade, a dermatologia é uma especialidade que está sendo tomada por pessoas sem capacidade profissional para atuar nesse ramo, está muito ligada à beleza e à estética nos últimos tempos. Mas isso é um equívoco que queremos desfazer. Desta vez queremos oferecer nossos serviços a uma parcela da população que geralmente não tem acesso à informação nem condições de bancar um tratamento dermatológico de qualidade. A SBDRJ vem tentando realizar esse projeto solidário com colegas de profissão que querem mas não sabem como ajudar. Contaremos com a boa vontade dos nossos colegas para fazer um trabalho de formiguinha, atendendo a 100 pacientes por semana em nossos consultórios gratuitamente.

  • Como funcionará?

    Lançaremos oficialmente o evento no dia 5 de novembro em duas comunidades carentes do Rio - nos morros Azul, no Flamengo, e da Providência, na Gamboa. Duas equipes médicas irão oferecer, das 9h às 13h, exames clínicos e histopatológicos ou micológicos, nos casos em que houver necessidade. Esperamos atender a um público de cerca de 1.500 pessoas. Serão mais de 60 dermatologistas da Sociedade que, voluntariamente, vão avaliar os pacientes sem custos e ainda oferecerão tratamento gratuito com amostras de medicamentos que recebem em seus consultórios. Para os pacientes que precisarem de tratamentos mais elaborados, a médio e longo prazos, vamos encaminhá-los aos serviços credenciados pela SBDRJ, tais como os da Santa Casa de Misericórdia do Rio, Hospital Pedro Ernesto, Hospital da Lagoa, entre outros. Alguns dermatologistas com atividades muito específicas também vão participar, mas de outra forma. Eles doarão seus serviços para tratar de pacientes com hemangiomas e alguns tipos de tumores ao disponibilizar tratamentos com aparelhos como o laser, cuja sessão de tratamento pode custar até R$ 1.000, dependendo da região afetada.

  • Como é possível participar?

    Para entrar na lista de pacientes da campanha é preciso, em primeiro lugar, se cadastrar na ONG Médicos Solidários, um braço da ONG Médicos Sem Fronteiras no Brasil e nossa parceira neste desafio. Essa organização, que está presente em várias comunidades carentes da cidade, conta com uma equipe de assistentes sociais que ficará responsável pela checagem dos dados de cada paciente inscrito para saber quais realmente não têm condições financeiras de bancar um tratamento dermatológico.

  • E como será o tratamento ao longo do ano?

    A campanha não se restringirá ao evento de lançamento. Nosso trabalho vai continuar até novembro de 2006, com o acompanhamento médico dos profissionais que abriram uma brecha na agenda de seus consultórios e doaram algumas horas para atender a população que não tem condições de pagar pelos seus serviços. Quem quiser contribuir para a campanha e ajudar a aumentar o número de pessoas atendidas no futuro por este e outros programas desenvolvidos e apoiados pela ONG Médicos Solidários pode comprar a camiseta com a logomarca da campanha ''Dermatologista Solidário'' à venda em alguns shoppings da cidade, eventos médicos e em lojas Dermage, além de deixar sua contribuição nos cofrinhos que estarão disponíveis na recepção dos consultórios dos dermatologistas participantes. A atriz Cissa Guimarães, por exemplo, foi escolhida madrinha da campanha e dispensou seu cachê para ajudar.

  • Que doenças de pele são mais comuns nos brasileiros de baixa renda?

    Isso vai depender da faixa etária. Por exemplo, em alguns trabalhos que já realizamos com crianças de um orfanato do Rio, localizado no bairro da Gamboa, encontramos muitos casos de pediculose, piodermite, micoses e infecções bacterianas de pele, entre outros. Em adolescentes, os casos de acne são os campeões de reclamações, pois chegam a provocar problemas de grande impacto social nessa faixa etária. Já em adultos, diagnosticamos de tudo um pouco, desde eczemas provocados por produtos químicos, passando por casos de Doenças Sexualmente Transmissíveis - as DSTs -, até hanseníase, doença que deveria estar erradicada, mas que colocou o Brasil como vice-líder em número de casos, atrás somente da Índia. E nos idosos, constatamos a grande incidência de casos de câncer de pele por falta de proteção contra o sol. Essas doenças são geralmente causadas por desinformação e pela falta de uma política de prevenção na área de saúde no país, que queremos ajudar a combater.

  • A SBDRJ tem planos de estender a campanha para mais pessoas?

    No fim desta nossa primeira campanha, que está previsto para novembro de 2006, conseguiremos reunir uma boa base de dados sobre os problemas dermatológicos das comunidades atendidas e, conseqüentemente, da faixa da população que elas representam. Isso não havia sido feito anteriormente. Essas informações serão valiosas para, no futuro, estudarmos as afecções mais comuns, suas causas e tratamentos adequados para essa faixa da população, além de dar continuidade a esta ou criar novas campanhas de prevenção e tratamento, o que ficará a cargo das próximas gestões. Acredito que com o sucesso deste projeto pioneiro da SBDRJ, nossas idéias sejam encampadas e levadas para beneficiar muito mais pessoas no país.

  • Por que o foco na solidariedade?

    Acredito que a medicina se distingue da maioria das profissões e geral. A grande diferença é que, nesse caso, não é possível pautar sua vida profissional pelo lucro. O médico não pode ser assim. Ele deve ter a consciência de que é a pessoa que deve diminuir o sofrimento e ajudar o próximo. Temos uma função social que deve ser resgatada.


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    [29/OUT/2005]


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