Mistura que dá certo

Com o aumento de estudos para provar sua eficácia, terapias alternativas ganham simpatia dos médicos

Cíntia Parcias

[13/MAR/2004]

O que era alternativo está mudando de cara e se tornando oficial. Conquistando pacientes insatisfeitos com os tratamentos convencionais e mostrando bons resultados em pesquisas científicas, as chamadas terapias alternativas ou complementares estão sendo absorvidas por nossa medicina e ganhando novo status, anunciando um promissor casamento. Mesmo que a união demore a ser consumada de fato, a realidade aponta para um futuro onde estetoscópio, agulhas de acupuntura e ervas medicinais ocuparão o mesmo consultório, em pé de igualdade, em nome da vida.

O primeiro passo nesse sentido foi dado quando o Conselho Federal de Medicina (CFM) reconheceu a homeopatia e a acupuntura como especialidades médicas, em 1980 e em 1995. Agora, é a fitoterapia que está em vias de ser incluída nessa lista. Como conseqüência da decisão do CFM, os planos de saúde passaram a cobrir consultas com homeopatas e acupunturistas e estudam a possibilidade de fazer o mesmo com a RPG (método de correção postural para tratar dores de coluna). No ano passado, a Unimed teve 9.700 consultas de acupuntura e 17.500 de homeopatia. ''Em breve cobriremos também RPG, pois há uma pressão muito forte do mercado nessa direção'', afirma o superintendente médico do plano Eduardo Assis. Na Amil, a procura pela homeopatia também tem sido grande. Para cada quatro consultas em cardiologia ou pediatria, há uma para a prática das bolinhas.

Nas universidades, além de serem alvo de pesquisas, terapias complementares são estudadas em cursos de extensão e de pós-graduação e resolvem os problemas do crescente número de pacientes atendidos nos hospitais universitários. Até algumas prefeituras se renderam e desenvolveram projetos de saúde pública baseados em práticas complementares. Uma das provas dessa aproximação entre o convencional e o alternativo é o curso de Pós-Graduação em Terapias Naturais e Holísticas que começa no fim deste mês na Universidade Castelo Branco, no Rio. Sua criação teve como base dados que mostram que a onda pró medicina-alternativa não é exclusividade nossa.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), 80% das doenças modernas poderiam ser tratadas por terapias complementares, e estudos desenvolvidos pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam a atividade de terapeuta holístico como uma profissão promissora. Faz sentido: nos Estados Unidos, são gastos US$ 2,7 bilhões ao ano em medicina complementar ou alternativa. No Canadá, esse valor gira em torno de US$ 1 bilhão.

Muito desse sucesso se deve à diferença de enfoque ao analisar o paciente. Enquanto a medicina convencional estimula a especialização e vê o organismo de forma fragmentada, as práticas complementares propõem uma abordagem mais ampla. ''Principalmente na linha chinesa e indiana, o médico tenta fazer uma análise do todo, vê o organismo como resultado de interações e busca, além de resolver a queixa principal, desenvolver o potencial do ser humano de se manter saudável'', comenta o clínico geral Aderson Moreira da Rocha, que tem formação médica nos EUA, Índia e China e preside a Associação Brasileira de Ayurveda.

Que o corpo vai envelhecendo e as doenças vão aparecendo, ninguém ousa negar. A forma como cada linha lida com essa questão é que difere. ''A medicina convencional nos oferece remédios para continuarmos tendo doenças crônicas, porém de forma confortável. Não dá ao organismo a chance de reagir e mudar certas condições. Às vezes, a pessoa fica boa usando métodos alternativos e acha que foi milagre, mas foi o próprio corpo que teve a oportunidade de se reequilibrar'', afirma o médico Paulo Luiz Farber, presidente da Associação Brasileira de Medicina Complementar (ABMC).

Ninguém ousa questionar, tampouco, o valor dos benefícios da alopatia. Antibióticos são necessários, sim; cirurgias salvam vidas, sim; métodos de diagnóstico e de exames são eficazes, sim. ''O objetivo final é sempre a saúde e o ideal para alcançar esta meta é a fusão das duas abordagens. Lançar mão do que cada uma tem de melhor. Na ABMC, orientamos os pacientes a nunca se submeterem a um tratamento complementar, alternativo ou qualquer que seja o nome sem antes saber o que a medicina convencional tem a oferecer'', completa Farber.

Nesse movimento de ''oficialização do alternativo'', saber as situações certas para adotar um desses métodos e escolher os que realmente têm eficácia é fundamental para não cair em mãos erradas - aproveitando a maré, muitos pseudo profissionais prometem coisas que jamais poderão cumprir e inventam métodos sem o menor embasamento. É justamente para botar um freio na febre das alternativas e separar o joio do trigo que o CFM adotou pulso forte e proibiu certas terapias. Em 98, o conselho editou resolução que detalha as práticas que são reconhecidas como especialidades médicas, as que são aceitas pela medicina como ferramentas terapêuticas e as que não têm comprovação científica. ''Os médicos são proibidos de exercer essas últimas e quem o fizer estará sujeito à fiscalização dos conselhos regionais'', afirma o conselheiro do CFM no Rio, Mauro Brandão.

Mesmo sendo acusado de radical por muitos, o CFM encontra eco no mundo alternativo. ''É razoável que o conselho tenha controle. Há certos métodos que precisam de estudo mesmo. Hoje os laboratórios, principalmente europeus, apresentam pesquisas de mais de dez anos antes de lançar um fitoterápico. Isso é essencial pois o paciente deve saber que esses medicamentos têm efeitos colaterias e conhecer as interações medicamentosas. As práticas alternativas não podem ser tratadas com um vale-tudo. Cada uma tem aplicação específica e demanda cuidados específicos'', pondera o clínico Sérgio Teixeira, especialista em homeopatia e autor do livro Medicina holística (ed. Campus).

A febre alternativa também tem forçado médicos a levar para dentro dos laboratórios agulhas, ervas, óleos essenciais e uma gama de outros instrumentos terapêuticos não-convencionais para demonstrar, segundo os padrões científicos ocidentais, a eficácia de determinados tratamentos e suas melhores aplicações. Um dos mais revolucionários e conceituados estudos nessa área foi feito pelo físico coreano Zang-Hee Cho, da Universidade da Califórnia (EUA) e mostra os mecanismos de ação da acupuntura no corpo. Com um equipamento de última geração de ressonância nuclear magnética, Cho conseguiu verificar as reações cerebrais ao se colocar as agulhas nos pontos tradicionalmente usados pela acupuntura.

Ao estimular, por exemplo, o ponto referente à visão, o físico conseguiu ver, através das imagens do equipamento, que o córtex visual era ativado, possibilitando um reajuste da função visual e melhorando a condição do paciente. ''Este tipo de estudo, que usa a metodologia ocidental de pesquisa, é fundamental para termos credibilidade. Mas é importante que o pesquisador conheça profundamente a acupuntura, para não estimular pontos errados nem de forma errada. Enganos como esses acabam prejudicando resultados e dando falsa impressão de ineficácia'', afirma o ortopedista e acupunturista Ysao Yamamura, chefe do setor de medicina chinesa do Departamento de Ortopedia da Unifesp.

Desde 98, funciona nessa universidade paulista um laboratório de pesquisas em acupuntura com animais. São diversas linhas de estudo, algumas delas sobre tratamento de asma e de problemas do sistema digestivo, prevenção de osteoporose, melhora da capacidade de aprendizado e da memória. ''Fazemos pesquisa com ratos para investigar a atuação da técnica, visando divulgar suas aplicações viáveis para estimular pesquisas clínicas'', comenta a médica e orientadora dos estudos Angela Tabosa, presidente no Brasil da Associação Médica Mundial de Acupuntura.

''Assim como a acupuntura, outros métodos não-convencionais podem ajudar em muitos tratamentos, mas antes precisam ser seriamente pesquisados, não adianta ficar só reclamando'', diz o também médico e acupunturista Wu Tu Hsing, da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Sociedade Médica de Acupuntura de São Paulo. O problema é que pesquisas com terapias alternativas ainda não são regra no país. Uma das possíveis razões é que esses estudos são caros e de baixo retorno financeiro, pois tais terapias não podem ser vendidas nas farmácias.

Aos poucos, no entanto, alguns hospitais universitários estão se rendendo às terapias complementares. No Hospital São Paulo - também ligado à Unifesp - são feitos mais de 2 mil atendimentos mensais em acupuntura, sendo a maioria para casos de dores músculo-esqueléticas. Entre estes pacientes, cerca de 40% vêm encaminhados por médicos que não conseguiram bons resultados apenas com o tratamento convencional. ''Nunca quisemos entrar em confronto com outras áreas de atendimento, por isso somos respeitados e bem aceitos'', afirma Yamamura.

Outra que aderiu à medicina das agulhas é a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O ambulatório de acupuntura também atende pacientes com dores em geral, vindos por recomendação de outros departamentos. ''Atuamos como complemento terapêutico'', explica o médico Décio Alves, responsável pelo ambulatório. E a Universidade Federal do Estado do Rio (Uni-Rio), que oferece serviço de acupuntura específico para o público da terceira idade, inaugura este mês curso de extensão na técnica, colaborando para a formação de profissionais gabaritados.

Não são apenas as agulhas que invadiram os hospitais. Na psiquiatria do hospital da Unifesp, o tai chi chuan entrou como auxiliar no tratamento de pacientes internados na psiquiatria. As aulas se mostraram eficientes tanto para os portadores de doenças mentais quanto para a equipe médica. ''O método acalma os internos. Só o fato de sair da enfermaria para mexer o corpo já os deixa com outro ânimo e bem mais receptivos'', comenta a professora de educação física Jeanne Kuk, responsável pela implementação do programa.

Já a aromaterapia e a cromoterapia foram adotadas como ferramentas auxiliares de tratamento no Hospital Cardiotrauma Ipanema e no Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra, respectivamente. No Cardiotrauma, uma pesquisa de dois anos feita pela aromaterapeuta Júlia Nunes comprovou que usar difusor com determinados óleos essenciais na recepção, na emergência e no CTI ajudam a aliviar a tensão e tiram a ansiedade tanto dos pacientes como de seus parentes. No Lourenço Jorge, a cromoterapia foi usada em todo o hospital no sentido de proporcionar bem-estar em cada setor. ''No CTI usamos lilás, que tem ação calmante e, na pediatria, o verde água, que relaxa, acalma, combate a insônia e é refrescante'', explica a médica Denize Monteiro, gerente administrativa.

Mas apesar de estar sendo vista com bons olhos por muitos médicos convencionais, a medicina alternativa ainda enfrenta barreiras e precisará trilhar um longo caminho até ser totalmente aceita. ''Alguns métodos funcionam para situações específicas, não para tudo. O problema é o mau uso dessas práticas por terapeutas que prometem curar todos os males. Isso não existe. A medicina não é infalível, e essas práticas também não. Ninguém nunca computou, por exemplo, quantos quadros clínicos foram agravados porque o paciente demorou a buscar o tratamento médico perdendo tempo com essas práticas sem eficácia''', pondera o médico Renato Sabatini, da Unicamp.

Para ele - e uma legião de profissionais da saúde - algumas pesquisas não provam nada, pois podem ser resultado de efeito placebo. ''Além disso, há um equívoco de abordagem. A acupuntura, por exemplo, funciona bem para dor porque já foi provado que pequenas dores, como as causadas pela introdução da agulha, são capazes de atenuar as grandes. E não porque o método atua numa energia que circula pelo corpo'', completa o médico.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, o que vale a pena quando o objetivo é a manutenção da saúde é um casamento equilibrado entre a proposta convencional e a alternativa; uma união de conhecimentos em prol da saúde.

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