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Um trem para o contraste

No vagão indiano, exemplo de fraternidade que se contrapõe ao sofrimento

Cecilia Guimarães Bastos

A Índia não é um país para ser visitado por qualquer tipo de turista. É indispensável estar preparado para o choque cultural. Nada naquele país é muito fácil de se ignorar: os cheiros, os temperos, os sorrisos, os abraços, a música, a dança: tudo é tão intenso que contrasta com a paz de espírito do povo. As pessoas são pobres, mas dignas. Não são desconfiadas – deixam o cliente na loja enquanto saem para trocar dinheiro e sequer contam quantas peças se leva para o provador. Viajantes passeiam com suas câmeras digitais por lugares de extrema pobreza sem despertar cobiça.

É impressionante observar como, mesmo com todo o sofrimento e dor a que são submetidos, os indianos mantêm-se pessoas sorridentes e calorosas. Pudemos observar essa característica desse povo em uma viagem que fizemos quando estávamos há uns 60 dias no país, que possui a maior malha ferroviária do mundo. Ainda não havíamos viajado em nenhum trem de segunda classe, que é o meio de transporte mais usado pela população de baixa renda. A classe média e alta se locomove em trens chamados sleepers. Foi uma viagem longa, de aproximadamente 13 horas, e acabamos descobrindo não só como os indianos viajam, mas como vivem naqueles vagões.

Milhares viajam por quatro ou mais dias em condições de extrema simplicidade, e ainda assim com um senso de decência incrível. Mulheres têm direitos como o de ocupar um espaço grande, de talvez três pessoas, enquanto homens dormem em pé e espremidos. Quem precisa deixar o lugar por qualquer razão coloca um jornal ou outro objeto no assento e todos respeitam esse símbolo como garantia de lugar, apesar do entra-e-sai constante.

Tentamos trocar algumas palavras com nossos companheiros de vagão, o que se revelou um desastre, pois nenhum deles falava inglês e nós só sabíamos umas 10 palavras em indi. Abrimos o guia, que continha fotos de todos os cantos do país, e começamos a apontar para os lugares. Então eles perguntavam se tínhamos ido para lá. Virou uma conversa de horas.

Quando a noite caiu, foi um tal de arrumar espaço para dormir... Fiquei pensando onde estariam os camundongos, que durante o dia passeavam livremente. Pessoas dormiam no chão, por todos os cantos. Não havia espaço para andar ou mesmo se mexer.

Apesar de todos os inconvenientes, a cena revela-se bonita: pais dormindo abraçados com os filhos e um clima bem fraternal. Aliás, essa é uma característica marcante do país: são todos como uma grande família.


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[19/JUN/2005]


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